16 de fevereiro de 2013

meu bem, meu bem

eu  paro no eu
que desgraça parar aí sempre
neste pronome mais recorrente que o seu
mas que vem sempre acompanhado do com
com você, com outro qualquer
foi nisso que eu me peguei diante da janela
fumando meus cigarros
(que eu comprei pela primeira vez, junto com um isqueiro preto)
e tragando um pronome que não existe na norma culta
tragando você
sem a pressão baixa que o cigarro sempre traz
só com
só com o aperto no peito que a fumaça causa
e os pronomes que a véspera faz pensar
no eu, no eu,
jesus, eu sou egoísta
mas de ego em ego eu vou me curando de ti
ou repudiando o ti porque não sou gaúcha
e piorando a minha bronquite.

9 de fevereiro de 2013

uma radial leste de carnaval

num fechar de olhos a quebra da onda, o aspirar do vento, a rebentação caprichosa, a calmaria da água reversa
os pés afundando
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

num abrir de olhos a porta fechada, o barulho de pneus confeitando a água de chuva no asfalto, quilômetros inteiros sendo completados à altura dos olhos
os pés doendo
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

16 de janeiro de 2013

miojo de madrugada

ando enxarcando as meias, limpando algumas mesas
ando me acostumando aos pêlos brancos e ao sono
de vez em quando me doem tanto as pernas que só me valem as 50 gotas diárias
50 gotas de qualquer coisa já vale, dizem
os gatos dormem sempre voltados para o oeste, por aqui
nada muito nobre aqui na baixo augusta
as putas já me cumprimentam
já aceito cervejas de graça
e o porteiro acorda por minha causa
além dele, o vizinho talvez (a porta faz barulho)
na geladeira, coalhada e farofa
divido a cama com dois gatos e um alguém que chega
e recomeço uma coleção de garrafas a cada retorno
no mais, a sua falta de tato
não anda compensando o tato que falta

mas vamos marcar, sim.

5 de novembro de 2012

finadose

dose de conhecimento
dose de inércia
dose de telefonema para amigos
dose de portas batidas
dose de vinho
dose de cultura para artistas
dose de rivotril com nova schin
dose de caetano veloso
dose de coca-cola
dose de complacência
dose de tontura ao telefone
dose de obsessão pela pessoa pré-amada
dose de esmalte
dose de consultas ortográficas ao google
dose de poesia que se pretende atemporal
dose de poesia que não se pretende nada pois cita o google
dose de insônia
dose de cerveja
dose de cheiro de urina velha do anhangabaú
dose de de novo não
dose de dor de sempre no pé
dose de cena fictícia sendo decorada com a janela aberta
dose de não vou, mas estou aqui pra qualquer coisa
dose de um cabelo muito armado
dose de um ou mais banhos adiados
dose de uma irmã com labirintite
dose de filmes longos em italiano


Daí, um legítimo coquetel de feriado
(e um grande desperdício de ingredientes).

28 de outubro de 2012

um texto de algum tempo sem conjugação

Me peguei assim de repente entre o vir e ir.
Apnéia é a metáfora. A quase dor que surge entre o inspirar e o expirar.
O tempo suspenso num ar represado, o tal tempo dolorido do presente.
O tempo de ver-se a um só tempo diante de um futuro reticente e de um passado cheio de certezas irrevogáveis.

É o tempo da reza úmida, que chora pelos que foram, pelos que estão indo, pelos que irão.
Só um aperto na garganta denuncia o futuro. Mas pode ser gripe.
Fato é que me vi assim, sem pertencer nem ao futuro nem ao passado de ninguém. Mas com correntes em volta de mim mesma, que me puxam para qualquer destino próprio. Quisera ter correntes nos olhos, para que eles não se perdessem na paisagem dos presentes alheios. Sinto falta de ser presente. Sinto falta do passado. Sinto falta dos futuros já substituídos. O que poderia ser somado ao que parece ter sido e ao que é...



luz quieta

O serviço funerário de São Bernardo não tem sirene.
Um carro branco, geladeira de almas, com uma luz azul-movente por cima, sinaleiro de espíritos. Eis tudo.
Como os doentes e criminosos, não teriam os mortos também alguma urgência no deslocamento? Não deveriam também ser autorizados a abrir passagem por entre a corrente de viventes - estes, aos quais não mais importam nem os doentes, nem os criminosos, nem os mortos, nem as sirenes azuis silenciosas (a não ser quando sonoras e vermelhas)?
Não, não é a morte que alardeia, que precisa ser vista. Esta é a sua fuga - composta por indiscretas sirenes que impedem uma conversa num café e que fazem de um motorista comum um exímio executor de clareiras no trânsito fechado. A um tempo fugitivos e cúmplices na fuga, na sempre fuga nossa de cada dia, como num replay ad eternum de um filme da seção Aventura da Blockbuster (Suspense, Terror, Pornô...), somos embalados por iós e banhados de vermelhidão luminosa e plasmática.
E, no entanto, no silêncio das buzinas de todo dia, obedecemos ao sinal-vermelho-fechado e não nos atrai a atenção um faroleiro azul ao lado, a própria morte no banco do passageiro num carro branco demais para sua  presença.

Aos viventes, a cromoterapia adverte: Deem preferência ao azul para momentos de relaxamento. As tonalidades do azul - principalmente as que tendem ao pastel - são altamente recomendadas pelos cromoterapeutas na pintura de ambientes tranquilos como quartos e banheiros, pois trazem ao habitante uma sensação de serenidade e paciência, bastante adequada ao sono.

27 de julho de 2012

Algo sobre a nova matriz da minha cidade

Uma nuvem rosa me fez pensar num exercício de dramaturgia.

Lamentando-se depois de um mato cutucar-lhe a orelha (um desses matinhos abusivos, nem excessivamente altos, nem excessivamente baixos, plantados pela prefeitura para denunciar quem se esconde e não incomodar quem sente falta de verde), um senhor diz a outro: 

- É... Conseguiram o que queriam. Tiraram daqui o que havia para olhar. Pra digestão do almoço agora é queimar os olhos nesse branco refletido vendo os carros e os prédios e o recapeamento bem feito e o novo revestimento de pedra da praça e o Santander e um ou outro mato que entra na orelha.

- Verdade,
Fica só o pipoqueiro como restolho poético.
E a manca que parece abalada pelas novas curvas futuristas do chão.
E a menina que aponta pra "lua e o sol no mesmo céu!" às 17:30.
E o sol que se apaga, acendendo as luzes brancas dos holofotes. (engraçado como tudo virou lua de repente, não se encontram mais luzes amarelas no Center Castilho)
E vez ou outra um sinal da cruz.
E os sinos! E a gravação da Ave Maria!
"Hoje é dia de missa de sétimo dia, não de casamento"
E essa igreja agora com cheiro de cimento
Este é o meu sangue
Este é o meu corpo
Corpo de cálcio
De cal
Olhos calcificados
olhando de soslaio (talvez tentando entender por que o sino atrapalha a melodia farfalhante de suas sacolas desse jeito tão harmonioso)
E enquanto isso o pipoqueiro faz barulho pra tirar pedras brancas de um bueiro branco quebrado e varre o chão levantando poeira branca e lava as mãos numa água branca e a pipoca branca esfria, branca.


-É, cimentaram tudo, mas por fim não tiraram daqui o que havia para olhar.

26 de julho de 2012

Perdão, mas até que homem vai o ego de uma mulher?

25 de julho de 2012

refresco

eu quero tocar fogo nesta casa
e sentir no crepitar da pele o não crepitar do resto
ver-me aconchegada assim, nesse quente, nesse ardor
enquanto os outros calores esperam do lado de fora
longe das labaredas daqui vão ficando frios
sem oxigênio de suspiros pra combustão 
e sentada no sofá me lembrarei de algo
e pensarei ouvir alguma coisa
até cogitarei interromper tudo e atender à porta
passar batom nos lábios mortos
e te atender como quem não esperava

mas permaneci assim, imóvel
só um sorriso débil borrando-me o rosto
e um daqueles silêncios mais silêncios 
que estão sempre lá pra anteceder qualquer coisa
e a coisa não chega
foi quando um vento fino abriu a cortina e,
junto com a sua ausência,
me apagou.

31 de maio de 2012

Oração à cerâmica azul

Meu tio enfartou hoje.
Andava em alguma daquelas ruas sem ninguém só com árvores e passeios de domingo de sua juventude. Almoçou, dormiu e deve ter ido andar, ele sempre faz isso. Enrijeceu, caiu. Deve ter gritado aquele grito dos que pedem socorro sem querer. Grito de quem não grita há tanto tempo que esqueceu como gritar, grito mandado por Deus que ordena "grite! antes que você não possa mais!". Na infância, lembro de ter ganhado dele três golfinhos de cerâmica azul. Na morte do meu avô, eu, criança, quis ter qualquer coisa em mãos pra chorar por alguma coisa concreta, não pela ideia abstrata e estúpida da morte. Peguei os golfinhos do meu tio, impus a eles a memória de tê-los ganhado do meu avô, afinal, moravam na mesma casa, tinham o mesmo cheiro, tinham o mesmo prazer em me mostrar o pé de morango que brotava de uma privada cheia de terra que instalaram no quintal. Não recorri aos golfinhos na morte da minha avó. A concretude da cerâmica deu lugar à concretude da memória, minha idade já permitia tocar nas bochechas vermelhas e ouvir o arrastar dos chinelos de pano no assoalho sem precisar de bochechas ou de chinelos nas mãos. Já tinha entendido a morte. A morte era ficar sem alguém, mesmo que você já estivesse sem alguém há um tempo. A morte era a impossibilidade de reencontrar alguém, a incapacidade de, em uma visita de Natal, compensar (e adquirir o perdão divino) anos sem visitas. A morte é tudo aquilo que faz pensar no que a gente não fez por alguém. E eu não via meu tio desde que as visitas de domingo aos meus avós cessaram. Mentira, o vi sim. Poucas vezes, às vezes sozinha, quando passava pela rua antiga e o via na calçada. Ele me fazia entrar, colher trevos de quatro folhas e levar umas jabuticabas ou limões. Os trevos talvez ainda estejam lá, uma plantação deles compensando a falta de sorte. A jabuticabeira morreu, deve ter sido regada demais. Restou o limoeiro que, árido como era, aguentava um regador de lágrimas salgadas sem reclamar. Minha mãe me fez chá deles esses dias pra melhorar minha bronquite, mas ela piora quando eu choro, mesmo com chá. E agora essa vontade de comer jabuticaba. Que nem a que dava  nos domingos à noite, quando o quintal estava escuro demais pra achá-las. Nele brilhavam apenas as centenas de  vaga-lumes que eu só encontrei naquela casa. Estrelas das árvores. Hoje eles não existem mais, em nenhum lugar. Também eles partiram pra algum lugar com jabuticabas. A casa agora está vazia, ressoando apenas o relógio de pêndulo que badalava de hora em hora, em meio a muitos outros relógios parados. Um tempo que corre em meio a outros tempos pausados. Meu tio é relojoeiro. 

É, não morreu ainda.
Avisa teu pai.
Os médicos disseram pra não ter esperanças.
Chegou quase morto.
Ficou tempo demais sem resgate. O cérebro foi afetado.
Foi na rua, sozinho.
Almocei com ele e ele foi dormir, deve ter saído depois.
Ele costuma passear nesse horário.
Sempre andava com uma caderneta com o telefone dos irmãos no bolso.
Não pode receber visitas.
Avisa teu pai.

Aviso.

Ficou tempo demais sem visitas, o cérebro foi afetado. Deve ter saído sem esperanças, depois do almoço. Andava na rua com o telefone dos irmãos. Não tinha esperanças no bolso. Avisa teu pai sozinho. Foi na rua, sozinho. Não morreu, ele costuma dormir nesse horário. 

12 de maio de 2012

Telhados

(http://www.youtube.com/watch?v=IUAF3abGY2M&feature=related)

Era um sábado diferente. A luz mudara.
Fazia meses que só conhecia a luz alta do sábado, a que há entre um anoitecer e um acordar tardio. Vira-se obrigada a fazer um exame nessa manhã, e era apenas por essa razão - não pelos raios tímidos de sol, nem pela calmaria que só se encontra aí, quando os trabalhadores dormem e sonham com a programação de fim de semana da tv - que estava ali, tão cedo tão distante tão calada. Avental, toucas para pés, seu interior sendo explorado por câmera, gase, tinta azul e pequenos instrumentos que, por falta de estudo em medicina, se permitia chamar de colheres. "Acompanhe pelo monitor, senhora." Colheres dentro dela, e ela pensando que devia ter comido um pão com manteiga.

Do lado de fora, pensou na casa muito longe e nos ônibus que de sábado fazem regime de gente e aproveitam mais a cama, eles merecem, vai que pegam uma pneumonia ou qualquer dessas doenças pulmonares de outono, eu bem que já vi um tossindo preto, bem que eu vi. Sem pudores, um gordo vento inflou-lhe o vestido, engravidando-a de brisa. Seria menino, não fossem os nove meses que demoraram tão pouco pra acabar. Olhou o céu, branco. Daquela brancura que os grandes conhecedores do Belo dos programas da tarde denominam "tempo feio". Era belo assim - tanta gente que sempre quis ver neve, nem percebem que é ela que cobre o chão do céu de vez em quando -, branco. Quis andar.

Na vizinhança muitos pacientes, a maioria impaciente, sempre à espera de resultados e curas e notícias ruins e diagnósticos de morte iminente para que possam comer chocolate e ficar nus em seus últimos dias com esse álibi que ninguém contestaria. O tipo de paciente que parece nunca ter deixado de ser paciente. E haviam os pacientes dos pacientes, aqueles que esperavam pelo outro e seus resultados, curas, notícias ruins e diagnóstico de morte iminente, já pensando em recusar ser fiador de gente assim, que morrendo logo vai querer empréstimo pra última viagem e crediário das Casas Bahia pra carimbar um sofá novo uma vez só. Deveriam saber que estar morrendo e estar morto é a mesma coisa. Deveriam mesmo.

Quase fugindo do cheiro de silêncio desinfetado, continuou andando a passos incertos, sabendo onde ia parar, ela sabia, decerto, sem dúvida, "quero flores", ela pensava em comprar flores, só umas florezinhas e ir embora, o dia estava frio e ela precisava comprar um remédio, "só umas flores", ela pensava. Acontece que para além das flores havia a morada dos avós, a cama rígida dos antepassados, o albergue das camas de mármore dos que já foram. Quis entrar. A cada passo era como se adentrasse num ar mais espesso, como se o tempo dos mortos fosse macio, oleoso. Uma aglomeração no portão, esperavam um corpo. Rostos sem maquiagem, roupas coloridas, não é luto de filme americano. O povo daqui se move rápido quando alguém para de se mover de repente. É rápido que se vestem, é rápido que entendem o que aconteceu, é rápido que oferecem condolências, é rápido que choram pra que os que choram mais doídos não se entristeçam mais. E rapidinho já estão tomando café que alguma vizinha do morto deixou na mesinha. 

Passando do portão e dos olhares apressados que parecem reconhecer o lugar - já que não são de lá,  não pertencem àquele lugar, nada ali é natural, nada, nada, por favor deus livrai-nos do mal, amém - é o devagar que toma conta. Os vivos de dentro estão de visita, possuem a calma de quem já não tem pretensão de olhar nos olhos vivos, de arrancar palavras ou de cheirar os cabelos a qualquer custo de quem já foi. Os olhos destes são olhos de saudades dos mortos bons (aqueles que permanecem mortos), aqueles outros, desesperados, permanecem úmidos constantemente pelos mortos ruins (assim chamados porque ficam presos às lágrimas dos vivos, sofrem com eles, não os abandonam). São duas saudades distintas, aquela que manda um abraço e se contenta com um cartão postal, e aquela que exige o abraço e a quem um cartão postal nunca seria recebido sem gritos e rasgos. A ela nada agradaria mais do que um anexo preso àquele  com um clips, uma passagem de ida, é só o que pede.

Tentou distinguir em meio às superfícies escorregadias dos azulejos algum conhecido. Há famílias inteiras morando lá, pede-se silêncio e cuidado com as quinas. Passou por velhos que lavavam os túmulos com o zelo de quem troca fraldas. Um senhor detalhava com um pincel a moldura do altar de uma das lápides, queria agradar a Deus. Um artista de cemitério, um pintor vivo da morte. Sua esposa encarou a visitante, como uma alma ou uma joaninha que espera o próximo passo do outro para então tomar uma direção. Envergonhada, seguiu sua procura. Nem mesmo sabia mais o que procurava. Alguns corredores estreitos depois, quando já não sabia se pisava em chãos ou em telhados, encontrou um sobrenome conhecido. Jazia ali a família de sua avó. O vento que se formou nesse reencontro a despenteou, e com seus cabelos também seus pensamentos embaraçaram. O que a trouxera ali, afinal? O vento insistia em desarrumá-la, ele bem sabia que ela deixara de usar roupas largas por vergonha de seu corpo, sabia que ela as usava agora para que ele tivesse espaço para abraçá-la. Abraçada assim, como estava, beijou o passado, chorou diante dele. Diante da lembrança dos olhos claros e pretos que sempre a estremeceram quando diante de uma fotografia antiga. Pediu ajuda. Insistiu que a acompanhassem para que consertassem a vida dos seus. Enfim distraiu-se com um barulho, secou as lágrimas. Sabia que não era de bom tom ficar assim tão próxima de gente morta. Dali só conhecia sua avó, e ela provavelmente não conhecia sua neta dos seus últimos anos de escleorose, ainda que lhe oferecesse a lembrança dos doces italianos açucarados. Ficaram assim, se fitando por um tempo. E desta vez o vento, este do sopro de sua avó, pediu-lhe que dissesse o que tinha vindo dizer. Num suspiro, a menina disse: "afinal qual o melhor cheiro, o da terra por cima ou por baixo?

Encontrara a morte, era ela o que procurava - e das flores esta só tinha o aroma.

7 de maio de 2012

céu de areia

Nos depositamos nos outros até que virem a ampulheta
E é sempre antes do último grão, é peso demasiado afinal.
Convenhamos, areia nenhuma se assenta desse jeito, a não ser na transição.
Nem é muito peso, é só peso cansado
Peso que busca chão, que cansou de ser objeto do tempo
E das aflições e das desistências e dos amores e das desilusões.
Areia que cansou de ser unidade de medida,
Corpo que cansou de ser unidade de controle.
A alma só quer ceder à gravidade, só quer permanecer um pouco, independer-se do tempo.
Mas o refúgio da alma, assim como o da areia, é o próprio estrangulamento da passagem, é esse nó de garganta pelo qual custa passar qualquer coisa, é essa incapacidade de estar em outro lugar que não seja o da mudança, é essa ausência de origem e de destino. O ar é o que acalenta a areia, e ele é frio.

E de chão a teto, o que fica é só o tempo.

1 de abril de 2012

uma última palavra sobre.

de tempos em tempos, te confiro. de luneta em mão, tento enxergar qualquer banco de areia da tua ilha movediça. e da linha arredondada do horizonte vejo escrito: acabou. estou feliz aqui. você está feliz ali. se bem que dizer... bem sabemos que a alegria ou o pesar de qualquer um de nós só se constata na presença. e estamos distantes. melhor assim. meus portos seguros agora são muitos, ou nenhum. o seu, bem posso imaginá-lo, no seu típico mar revolto de incertezas, piscando fraco em meio às tempestades das tuas escolhas. eu estou no interior, na água doce e hostil, mal te vejo. bem queria. só o que se mostram são encontros distantes e fortuitos entre faróis e embarcações inseguras. que não sejam apenas luzes. que te amem. antes eramos duas embarcações, talvez. duas naus naufragando de mãos dadas, encontrando uma na outra um porto. éramos separados por oceanos, por horizontes molhados. na garrafa, um cheiro de rum impregna o pergaminho que diz: "vou indo, vai indo, nos perdemos aqui, nesse desencontro." e no mar mergulho, esperando-t.... esperando-um-te. te cuida, pois já tirei essa tarefa da lista dos meus pensamentos. terei que dar uns pontos nesse coração.

15 de março de 2012

contando roxos

roxos doem conforme a altitude
bater a canela quando se está nas nuvens não dói
a não ser que se escolha olhar o roxo
porque o roxo é a dor que não quer ser esquecida
é dor que dói por se fazer olhar, é nos olhos que ela dói
o roxo é o que te mantém terrena, o que te faz voltar pro chão
por isso que eu ando criando o hábito de me ancorar
porque cair da neblina das coisas que não doem causa hematomas
e a realidade assume-se... roxa.

1 de março de 2012

Meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou pensando
um pouquinho em cada coisa
me entristeço um pouquinho
mas calma
eu me alegrarei
garanto
meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho vou me afastando
e outros também se afastando, me afastando
bem pouquinho
um de cada vez
um pouquinho de cada vez
a minha voz vai ficando embargada
nada de mais, só de pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou esquecendo de como dizer adeus
vou perdendo as faces
e as vozes
de pouquinho em pouquinho as distâncias aumentam
(vide a áfrica e a américa
dois centímetros de atlântico a mais todo ano
no meu mapa são quilômetros)
sem que eu perceba o pouquinho vira muito
porque de pouquinho em pouquinho a gente deixa de estar
de amar
de esperar
deixa de querer lembrar
deixa na gaveta só o pouquinho do que passou
e é pouquinho o cheiro que sai dela quando é aberta
porque mal-conservada, sem naftalina, a cabeça da gente fica um pouquinho esquecida
e de pouquinho em pouquinho a gente se acostuma

é com pouquinho que eu me contento de início
peço pra ficar mais um pouquinho
abraçar mais um pouquinho
o pouquinho deixa de querer contentar
vira pouquinho apenas
e de pouquinho em pouquinho vou querendo ir embora e deixar a louça pra outra

pouquinho, pouquinho
chego a te amar
tamanha a sonoridade bacana do teu nome
mas não vou me iludir
bem sei que é pouquinho o que tem a me oferecer
teríamos um caso de amor regular, sem arrebatamentos
as estrelas do nosso céu pouquinho apaixonado seriam pouquinhas
e só um pouquinho brilhantes
nem filhos poderíamos ter
que diminutivos de pouquinhos se perderiam facilmente por aí
teriam auto-estima baixa, teríamos que pagar um psicólogo
e com pouquinho dinheiro não dá

de pouquinho em pouquinho vou achando engraçado falar pouquinho tantas vezes
lembra porquinho
mas não quero fazer graça
que o pouquinho é o meu estado de incompletude
o pouquinho é o que falta e o que sobra
me pego saturada e insaturada ao mesmo tempo
vivo de pouquinhos
ando um pouquinho abatida por isso
nada demais, só de pouquinho, não se preocupe
mas não ache que é pouco
é pouquinho
que o pouquinho tentando se convencer de que não é nada
se coloca no diminutivo, e assim acaba maior que pouco
se torna quase muito