29 de julho de 2010

navegando em terra

O soluço antecede a lágrima.
Em pequenos pulos, o corpo denunciava o dilúvio.
Convulsionava-se com movimentos que silenciavam o pranto.
Com o tempo, aprendeu a chorar liquidamente, apenas.
Em nó de marinheiro sua garganta se fechava, mas não subia à superfície em busca de oxigênio como antes. Sabia que o ar viria, era só esperar os passos passarem.
Passavam sem se deter.

À medida que se enchia por completo o mundo se esvaziava por completo. Nunca pensou que era assim que se sentia quem um dia estendesse e apertasse a mão de si mesmo. Que enfiando-se no espelho o que se espatifava era o lado de fora, que ver com os olhos de quem reflete é ver da moldura para fora e não da moldura para dentro. Tudo caíra com tal rapidez que os cacos pareciam querer compensar o incômodo tilintando no chão opaco. As imagens dizem, mas nunca podem ouvir.

Tilinta a saudade.
Mergulhada no espelho, brincou com as pequenas aranhinhas da solidão compartilhada, os garranchos que se faziam ouvir de longe mas que só queriam ser ouvidos por ela, para que "em qualquer lugar que estivesse lembrasse sempre que o passado era uma mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera."
Verdade efêmera. Verdade mundo, verdade tudo. Verdade onírica.
Verdade própria. Mas verdade.
E o que torna a mentira melhor?
O passado da memória saudosa é sépia, poético. Contrasta-se o presente em cores.
O que torna a tela branca obra é a mão, não a palheta. Na tela o presente existe sem laço, sem embrulho. Presente nu, despido de primavera.
Não haveria de regressar se o que se mostra aqui fosse grito.
Mas é eco
eco
do eco
do
eco
eco
eco
do que foi.
A reprodução automática é mérito do homem moderno.
Se esquece que não há reprodução viva que não seja criada.
E tudo parece normal, e a normalidade é devorada por cupins. Resta o desespero de dissecar o verme. De mostrar, de esfregar na mão, na cara, no corpo o bicho, para que acreditem na realidade do que corrói. Que a ruga não quer ser susto, que a frieza deixa de aquecer, mesmo sob um milhão de cobertores. A vontade de gritar o eco, para que se perceba como tal. A ânsia de ouvir resquício de saudade que não venha do chiado da própria respiração ao telefone.

Depois de tê-lo combatido, querer ser querida pelo que há do outro lado da moldura.
A carência absurda de pertencer a algo.
À deriva.

25 de julho de 2010

saco de pele, é o que ele é.

saco molhado por chuva velha, manchado da poeira dos homens
entupidor de ralos públicos
a origem do saco não se sabe
há muito não se enche de nada
de luxos, de necessidades, de sonhos
sabe-se, pelo seu semblante, da nostalgia do ar passado
ao afável ar se dispensava permissão
entrava sem bater
expandia e contraía como o ar enche e murcha o vivo ser
ao céu se dirigiam, dadas as mãos
nunca era o mesmo, o ar
mudava como mudam as folhas da árvore ao longo do ano
o ano encurta-se para instante
e as estações para sopro brisa rajada de vento
o sentido era qualquer direção
abria-se
e cheio rodava, dançava, dava mil cambalhotas
cada poro abrigava sensação diferente
o mundo diminuía
como se um dia fechá-lo em si fosse possível
mas o dia em si era melhor que o mundo pra si
longe do mundo
sob a condição de receber, apenas
recebendo receberia tudo
chuva, vento, ar, amor, estrela
e tudo quanto recebia beijava-o docemente
o beijo
o beijo ele queria guardar
e guardou.
choveu
o beijo escapou por uma fresta
o pingo que o beijava agora pingava
o ar que queria entrar não pôde, encheu outro
foi então que se viu
sozinho, murcho, molhado
o mundo aumentando
ele diminuindo
como se um dia fosse possível ser engolido por ele
e foi
o chão não o beijou
os pés não o beijaram
a sujeira não o beijou
pele murcha
pesada demais pra dançar
a água beijava o mundo e sem querer o levava na saliva


na baba do mundo ficou
e nunca mais recebeu coisa que fosse

22 de julho de 2010

O atrito do pé e a rotação da terra

Saiu.
Após a queda, tomado por um espírito irremediável de aventura, saiu andando.
Cada olho seu via coisa diferente. Vantagem de sua condição sem vértices.
Macio ou turbulento, percorria os inóspitos domínios de sua existência, sem nunca ser detido por forças alheias.
Percorreu relvas marrons, montanhas serrosas.
Na planície, desejou a saída. Escura, fria, sombreada por nuvens cortinadas, a paisagem impelia quem fosse à aventura. Seu desânimo consequente foi questionado ao vislumbrar novamente Tyndall nos raios que se metiam no lugar. Sentia que poderia pegá-los e torná-los sabres de luz, como outrora vira, certa vez, em sua longa e já esquecida vida. Não pôde fazê-lo, no entanto.
A desilusão apontou-lhe a saída, e seguiu o aventureiro sem destino.
Sua ausência de destino sempre foi o que trilhou previsivelmente sua vida. Alardeando autonomia, via-se sempre no compasso de passos que não eram os seus.

E compassado ia. Com o passado ia.
Desbravou a si mesmo na jornada. A vida rolava ao seu lado.
Lembrou de que não há existência sem comparação. Não há morte sem vida, silêncio sem som, nem movimento sem imobilidade. Não sabia o que se movia, já que tudo precisa de um referencial, se ele ou o resto. Suas referências formavam borrões ao seu lado, de tão rápido se moviam em sentido contrário ao seu.
Convenceu-se de que estava parado. E foi a primeira vez que o mundo parou.
Não aguentou. Se além dele nada se mexia por não ter a quem se comparar, tinha que prosseguir.
O vento soprava rajadas ofensivas de poeira cósmica.
Desviava das folhas silenciosas que deitavam para a sesta.
Rumores de vozes e passos retumbavam em suas solas gastas.
A claridade fazia-se vermelha e depois negra.

Viu diante de si um abismo. Sua labirintite provocou nele a ânsia suicída de pular. Mergulhou em moléculas pesadas. Cardumes de pensamentos perpassavam ele, seduzindo-o com coloridas escamas gelatinosas e fugidias, mas sumiam logo, abandonando-o à imensidão de si. Sua trajetória existia à mercê da corrente imprevisível que o guiava pela mão posta sob a sua, fluida, obstinada. A partitura que se desenhava em nada se assemelhava ao que conhecia por dança. Seu tempo era elástico, malha lycra. Seu compasso não havia. Tinha ritmo, porém. O ritmo do ciclo, o ritmo do infinito, o ritmo do fim. Acariciava corais de crochê e fazia piruetas, locomovendo assim corpos que não viam necessidade de se locomover. Criaturas de muitos, poucos ou sem olhos prosseguiam sua rotina como se o intruso não existisse. Tudo se coloria pela luz guache que vinha de cima, dos lados, do fundo. O sonho nunca foi desejado mais real como neste momento em que o que via. Todas as coisas aumentavam e diminuam de escala a seu bel-prazer, engordando em velocidades inimagináveis e emagrecendo sem regime. Seres sem humanidade, sem realidade, brotavam das entranhas de algo que se assemelhava ao nada, mas o nada não existia porque aquilo ainda não era o tudo e não há nada sem tudo, nem tudo sem nada, e quando aquilo fosse o tudo, aquilo seria sua realidade, e a sua realidade iria então querer uma saída, e a saída seria o nada, que passaria a existir então, mas nunca seria encontrado, porque o tudo seria uma fronteira. A mão sob a sua fez-se impalpável, água. A corrente que o conduzia, que sempre o conduziu sem que se assumisse, sumiu. Os cardumes magicamente perdiam sua unidade e seus integrantes caiam em todas as direções, sendo no caminho mortos e escamados e esquartejados e enrolados em arroz grudento e algas. As sobras sem arremate tensionavam-se e os corais coloridos desintegravam-se em linhas lisas que, desamparadas, buscavam seus novelos numa corrida tão sem rumo que embolavam-se em nós eternos. As coisas gordas e luminosas comparáveis a marshmallows secaram-se em tripas escuras por osmose, morrendo ao se render ao meio. Os muitos, poucos e não-olhos fecharam-se descontentes, numa longa piscadela sem volta. Do guache fez-se o nanquim, manchando a vida de morte. Uma luz cegou-o. Viu que o lustre iluminava o triste cenário destruído por ele mesmo. Nadou o fugitivo. Esforçava-se em seguir a fonte que o iluminava, e quanto mais se aproximava mais via a silhueta negra do barco que desejava.


A luz que o cegava era tão negra quanto nas abissais oceânicas.
A pressão era tão grande quanto no fundo imaginado de qualquer mar.
O ar era tão escasso quanto num afogamento.
Jorrou do impacto um gêiser de lágrimas, irrompida a divisão com a superfície.


Habituou-se à luz, à pressão, ao ar. Sempre habituou-se a tudo.
As proporções o remetiam às lembranças ensinadas de normalidade.
O jorro lacrimal apenas pingava agora.


O barco era a cama.
Subiu, subjugado ao destino assumido.
Rolou as cobertas,
subiu a menina,
deslizou em seu colo,
encontrou sua corrente,
prendeu-se a ela.


E o peso do mundo no colar da menina a acordou.

21 de julho de 2010

vendo flores artesanais

Da trama
Da forma
Das arestas
Dos fiapos
Das agulhas


fazer flores soa pretensioso
uma
meus trapos ao chão forram a cama
após outra
divisórias de oxigênio
e outra
a beleza do mundo parado
uma quarta
ponteiros disputando corrida
arremate
névoa branca nas narinas peludas
mais uma
faço-me dispensável
depois mais uma
a espera de um susto
e outra
correr sentada tropeçar e sentar
a penúltima
persuadindo a mão de seu fim
e última
o recomeço tarda
linha
impotência de ser sem ser
pano
palavras para ninguém que apenas ouça

apegada ao desespero de se apegar
quero escrever, mas não sei o que
pra sujar essa página branca há tempo demais, sinto-me obrigada.

Essa especulação já suja suja o que eu queria sujar.

Ademais, blá blá blá

12 de abril de 2010

Billie may understand me.



I'll get by
As long as I have you
Oh there'be rain
And darkness too
I'll not complain
I'll live with you
Poverty
May come to me that's true
But what care I
I'll get by
As long as I have you
Ah, but tears may come to me
That's true
But what care I, say
I'll get by, as long as I have you

::::::::::::::::::::::::::::::::::

Please keep me in your dreams
In your sweet dreams let me hold you
When through your window
The breeze comes swingin'
It's just bringin' this love song that I'm singin'
Please keep me in your dreams
My kiss it seems must have told you
My heart you'll borrow until tomorrow
So please keep me in your dreams

::::::::::::::::::::::::::::::::::

If you were mine
I could be a ruler of kings
And if you were mine
I could do such wonderful things
I'd say to a star
Stop where you are
Light up my lover's way
And every star above you
Would obey, say
If you were mine
I would live for your love alone
To kneel at your shrine
I would give up all that I own
Yes even my heart
Even my life
I'd trade it all for you
And think I was lucky too
If you were mine

:::::::::::::::::::::::::::::::::

Me, myself and I
Have just one point of view
We're convinced
There's no one else like you
It can't be denied dear
You brought the sun to us
We'd be satisfied dear
If you, you'd belong to one of us

So if you pass me by
Three hearts will break in two
Cause me, myself and I
Are all in love with you

11 de abril de 2010

Sobre o tempo branco não há muito o que dizer.
O som do tempo branco é o silêncio.
Sob o teto branco
Eu me recolho
O silêncio nunca foi tão barulhento.

Não é dia para escrever; nem dia pra sentir.

4 de fevereiro de 2010

Amanhã me demito.
Amanhã faço um ano de trabalho.
E este amanhã é o mesmo dia, senhores!

Gosto do cheiro do livro.
Gosto das prosas da venda-compra.
Gosto da desordem.
Gosto da não-preocupação com objetivos do dia.
Gosto de pessoas - sem dinheiro na mão e julgamento na boca.
Gosto dos sábados.
Gosto de lá - quando não há olhares acima.

Amanhã vou chorar.
Amanhã me demito.
Amanhã faço um ano no trabalho.
E este amanhã é o mesmo dia, senhores!

Queria ter lido mais.
Queria ter parado de trabalhar e conversado mais.
Queria cuspir sapos.
Queria dizer que salário não constrói caráter.
Queria ter achado um emprego antes de me demitir.

Amanhã vou me arrepender.
Amanhã vou chorar.
Amanhã me demito.
Amanhã faço um ano no trabalho.
E este amanhã é o mesmo dia, senhores!

Volto a ser de casa.
Volto a ver gente.
Volto a fazer o que gosto.
Volto a querer ser independente.
Volto a amar passeios.

Amanhã serei livre.
Amanhã vou me arrepender.
Amanhã vou chorar.
Amanhã me demito.
Amanhã faço um ano no trabalho.
E este amanhã é o mesmo dia, senhores!
Escreva, pois!

no ato de escrever
me hipnotizo quando pequenos quadrados inscritos por letras são pressionados
e ao olhar pra cima
vejo as mesmas letras
alinhadas de forma a mostrar que elas têm significado.

manualmente
essas letras, já em grupos de excursão escolar
dançam os acordes de sinapses
pulam de gomo em gomo no cérebro apertado
transitam memória, sensação e dor
depois se esvaem em lágrima, riso e amor

na automatização do teclado
ou da mão
as letras viram palavras
e as palavras, algo.


Nem sei o quê.
Falando sobre o ontem,
Durou muito o ontem,
pelo fato de o ontem querer ser anteontem.
O desejo do ontem era ser amanhã.

Não passei na USP.
Passei na UNESP.

Entre dois belos doces
O de aparência mais doce dentre os dois
embolorou
ao que o outro
caiu na minha mão.


TEATRO, ENFIM!

22 de setembro de 2009

Cinzento Entendimento


Um dia, há algum tempo, andava pela rua.
Andava como todos andam, acostumada a qualquer nova informação.
Andava esta vida sem as surpresas de uma ficção, sem as expectativas de um clímax ou de uma fuga da rotina.

Falta imaginação aos passantes.
Precisamos nos desacostumar ao que vemos.
Tudo nos surpreenderia então.

A mim, isso ainda não transitava pela cabeça.
Então não pensei muito quando liguei o som de um aparelho que faria minha vida ser mais dançante.
Trilhas sonoras me fazem sentir num filme, onde não importam as paisagens cinzentas, os dilemas trabalhistas, os conflitos amorosos. Pois neste momento minha vida não passa de uma hora e quarenta e cinco minutos, e por ser condensada de tal forma, tudo toma uma intensidade diferente, e gera um interesse maior. E faço associações entre minhas músicas - velhas para todos e atemporais para mim - com aqueles cujos rostos cansados e cheiros acentuados transpassam aquela fronteira imaginária que cada um cria em torno de si numa calçada. Antes cantadas do sofrimento de certa época, agora serviam de moldura pesarosa para aqueles que talvez não reconhecessem em si o sofrimento de uma vida que anda sem surpresas por ruas cinzentas, enquanto passam despercebidas por pessoas que não as querem conhecer, enquanto se vêem sem quem as quis, enquanto riem a piada. Enquanto choram a vida.

Absorta nas divagações de quem descobre em si a verdade dos outros, um som me chama a atenção.
Meu olhar se volta para um homem, que passa lentamente por mim sobre uma bicicleta.
Ele olha para mim sorrindo.
Não tirei os fones a tempo de ouvir o que me dizia.
Mas senti repulsa.
Da placidez do meu semblante fez-se o nojo e a vontade de não mais compreender as pessoas.

Pela instintiva associação que fiz entre o sorriso de um homem de aparência humilde a uma tentativa de sedução vulgar, vi que não tinha vocação para entender as pessoas.
Nunca vou saber o que ele disse.
Mas se eu não posso culpá-lo por me deixar desconfortável, culpo a mim mesmo por me sentir incomodada com um sorriso.

Se antes abriguei as pessoas na minha compreensão, agora peço-lhes que me compreendam.
Naquele lapso cinematográfico, enquanto mergulhava na ficção de meus pensamentos, não soube lidar com a supresa que tanto me instigava.
A surpresa me fez retornar à realidade:

Acostumei-me ao cinza daqui. E este cinza nubla a infinidade de cores que eu sei que existem aqui. Preciso me colorir.

29 de maio de 2009

Sobre Respostas Mudas, e Imutáveis

Silêncio voluntário.

Eu, que na impulsividade de falar,
Me calo.
Eu, que não me enxergo na quietude,
Não tenho vontade de falar.
Eu, que debato com ardor,
Me engasgo num nó lacrimoso.
Porque minha voz gera atrito,
sai arranhando-me a garganta.
Silêncio.

Fiz um pacto de silêncio comigo mesma.
Involuntário, sem querer.
Assim como as palavras antes ditas sem querer
hoje saem naturalmente, obrigatoriamente.

Não me sinto bem aqui.
Tenho ânsia de ir.
Pra qualquer lugar, se estiver indo, eu não paro.
Contraio meus músculos em espasmos longos, que me tiram o ar
E o ar se transforma em água, e a água
em tristeza vaporosa.

Já não rebato o dito.
O diálogo não funciona aqui.
O monólogo sem platéia não atinge ninguém além de mim.
Choro, por não ser ouvida.
Choro, por não falar mais.


Quando criança sinto que fui feliz
hoje me sinto uma encomenda
que chega todo dia
e é rejeitada se apresenta defeitos.

Me canso de ouvir
e de me fingir de surda.
"Abaixe esse som!"
Música para calar, para ensurdecer.
O som não é meu.

Trato mal
agrido com o olhar
de quem sofre espasmos
lacrimosos
de quem se aliena de tudo, menos disso
disso que eu não quero viver
mas que vou sentir falta um dia
e por isso sou tratada mal
por quem pergunta por obrigação
quem me julga pra não ser julgado
que ordena
e que não fornece nada além de críticas e dinheiro e caronas.
e deve amar
só não mostra mais
não mostro mais
espasmos que enrijecem a carne
de quem só tem a carne para compartilhar
a alma se esconde
do lado descoberto da casa


me mandam ir dormir
e por isso eu vou
pra não dar tempo a mais ordens
pra não dar tempo a respostas que eu não quero dar
pra não voltar a ouvir.

8 de maio de 2009

O Fluxo Mental da Espera

Será que demora?

Frio hoje; não existe mais educação hoje em dia; onde será que escondem o pudor; sem preconceitos, me disseram; acho que só estaria livre de preconceitos se conhecesse todas as pessoas do mundo; todas as pessoas do mundo me assustam; ainda mais aquelas que estudaram na USP; não sei fazer indicações pra quem sabe mais que eu; gosto de achar que sei mais que os outros; pareço que sei mais quando os outros parecem que sabem menos;

;

Acho que é ele...
Será que é?
Como demora!


Ai esse cheiro de pipoca; murcha, feita há 5 horas...mais ainda cheira bem; não me deixar levar pelas aparências...; mas a capa daquele livro era tão atraente; será que minha capa atrairia mais do que meu conteúdo; gosto das escuras, que contrastam com o papel amarelado; gosto das duras, com ranhuras minúsculas, inertes; como uma impressão digital; impressão; a primeira é a que fica; que impressão é essa, que define a identidade sem que para isso sejam necessários dedos molhados em almofadas tinteiras; ela disse 'um ponto de concentração nos desfaz dos preconceitos';

;

Agora é, com certeza!
Que certeza, o quê?! Tão lento que chega a dar ódio.
Queria ter algo pra me distrair.
Umas palavras cruzadas talvez...
Seria bom.


Meus pés doem; minhas panturrilhas também; e todo o corpo se une num boicote generalizado; ponto de equilíbrio; pés afastados, joelhos levemente inclinados no eixo do quadril, em harmonia com as costas; e a cabeça?; pende solta; tento me buscar nos outros; não estou alí; de fato, sou preconceituosa; queria não ser tão criteriosa; dizem que o critério define a qualidade; critérios demais me fazem ver com uma viseira; como se eu colocasse uma forminha de biscoito em formato de flor em frente aos olhos, e só o que visse fossem flores; uma floricultura não funcionaria caso não existissem compradores; a plantação de flores não cresceria não fosse a água e o sol; quero ver os compradores também; e o sol; e a água; não quero olhos moldados numa fôrma;

;

Olha ele lá.
Não enxergo bem.
Será ele mesmo?
Não, mais uma vez.


Um casal bonito; os casais são bonitos; eles vivem por eles; não querem mais do que um ao outro; os verdadeiros casais; não há preconceitos; tudo se apazigua no olhar do casal; mesmo sendo um olhar de prenúncio de algo feito sob lençois; dá pra sentir o amor; consigo me identificar; mas tenho inveja; toda a linha artística do tempo é contraditória; um movimento em oposição ao outro; nunca consigo pensar plenamente no amor; plenamente na raiva; plenamente na tristeza; penso no amor e me vem a inveja dos que se amam sem distância; penso na raiva mas logo não vejo fundamento nela; penso na tristeza e penso tanto que causo lágrimas fora do contexto, me fazendo vítima; ó vítima que sou!; tão hipócrita escondendo esses pensamentos pra mim mesma; tão vítima quanto um pscicopata; tão psicopata quanto uma borboleta; elas sim, as borboletas; elas me assustam mais que tudo;

;

;

;

Lá em cima a lua brilha forte.

Acho que o seu combustível é o frio.
Tem uma aura gorda hoje. E avermelhada.
E mais pra baixo, lá na frente, o que é?
É o ônibus.
Chegou.


Sobre o que pensávamos mesmo?

17 de abril de 2009

Ervilha Confessional

Ontem, 01:33.

Não consigo dormir.

Tenho, pela frente, 3 horas e 57 minutos em que qualquer sã pessoa se obrigaria a dormir.
Então por que escrevo? Talvez na esperança de que essa insônia intelectual tenha um efeito "sonífero"?!
O que me incomoda é o caroço de ervilha debaixo dos treze colchões, - poderiam ser sete, nove, trinta e três, contando que eu não meta meu nariz no teto, fica a cargo do leitor a quantidade exata - o único que não me amacia o sono, mesmo sob um edredon fofo como uma nuvem quente, que me mantém confortável, ao som dos pingos de água que caem um a um na telha lá fora, numa noite fria ou o quão fria é possível ser no outono de um país tropical.


Claro, essa ervilha seria só mais uma se jogada no caldeirão de sopa de ervilha que anda borbulhando na minha vida. Mas dêem-na exclusividade agora, pois só ela me atrapalha o sono no momento.

Há pouco, divagando sobre ervilhas e seus efeitos anti-lexotânicos, percebi que parara de chorar. Creio que por causa da comicidade da comparação de um problema com um vegetal, talvez.


Tento, em vão, me lembrar de como eu era antes. Não fisicamente, pois sempre fui baixa e gorda, mas além disso, o que mudou? E para quem dirijo essa pergunta? E quem me responderia, se nem a inquisidora sabe a resposta? Não sou a única, e isso e consola. Quantos já não se pegaram na dúvida "Ok, consegui o que queria. Mas por que eu desejava tanto isso? Que tipo de excitação eu sentia na época em que isso era importante pra mim?"?
Queremos, por vezes, voltar ao tempo para sentir a mesma alegria ou vontade que outrora parecia tão forte, e agora... Some da nossa memória, e passa a pertencer à de outra pessoa, aquela que conhecíamos tão bem, que nos originou, embora não a reconheçamos.

Nostalgia. Saudades do que era comum, nos fez feliz e sumiu.
Triste sina essa do homem. Compreender a alegria posteriormente. Alegria póstuma. Hoje talvez, seja feliz. Mas o presente passa tão rápido e, de repente, zapt! Fui feliz.

Escrevo, meio tortamente, da minha vida social. Antes me cercavam amigos por todos os lados. Pensei ser agradável. Antes riam comigo, me diziam indispensável nas saídas. Pensei ser divertida. A cada novo conhecido, o mais novo amigo se tornava. Pensei ser carismática. Não há de se negar, tenho vaidades. Não sou menos digna do que aqueles que se inflam com elogios.

A vaidade não me dominou, mas definitivamente me iludiu. Não via o mundo aos meus pés, mas ao meu lado. E esse mundo exibia-se em sorrisos quando trocávamos olhares. Bem se sabe que sorrisos de cortesia valem menos que a indiferença dos desconhecidos. Mas creio que exigi demais dos que diziam gostar de mim. Exigi que se lembrassem de mim. Inconscientemente, previ que me esqueceriam. E condenei-os, só porque seguiam meus passos.

Sempre fiz apostas sobre quem permaneceria na minha vida, e quem de nada me lembraria. Errei em algumas jogadas, sempre para o meu azar, nunca para a sorte. Difícil ver partir quem deveria permanecer. Mais ainda é partir de onde deveria ficar.

Hoje, - sem querer ser um daqueles vestibulandos que começam sua redação especialistas em algum período da "sociedade" - o amor está em moda.

Ama-se tudo, porque amar é bonito. Mais bonito ainda é dizer que se ama.
Ter tanta preocupação em anunciar um amor ao mundo, em exaltá-lo de todas as maneiras, em empregá-lo em todos os comentários fotográficos de Orkut, que se esquece, às vezes que o alvo é a pessoa amada, e não a platéia que te escuta. Escuta, ou finge que escuta, enquanto posta um recado apaixonantemente vazio para alguém.

Já fui assim, portanto te compreendo bem.

Gosto de dar voltas, admirando a paisagem antes de ultrapassar a linha de chegada. Admito, preciso treinar a objetividade, para que mais pessoas além de mim se atinjam pelas minhas palavras.


Por vezes, pensava ser solícita demais, sempre disponível. Acordei indisponível, vejam só. E os sorrisos daquele mundo cessaram.
E cessarão sempre, por mais que juramentos sejam feitos.

Restam os chamados de recados vagos de futuros encontros saudosos sem horário nem data definida, que nunca acontecerão.

"Penso não ser preocupação de ninguém", minha ervilha retoma o disurso.
É mais confortante preocupar do que divertir.
Sentir que se preocupam com você.
Minha família se preocupa.
Um grande amigo se preocupa.
Outro grande amigo que tem por hábito me furtar beijos também se preocupa.
Quanto aos outros, há dúvidas.

Talvez já tenham se preocupado, mas o tempo os ocupa de outras formas agora.

Mas não se desesperem, não peçam perdão, não se subestimem, nem pensem que eu os subestimei. Pelo contrário, os superestimei no passado.

Eu os amo, ainda.
Amo por serem parte de mim hoje, por terem me construído.
Só quero um amor atemporal, que não se degrade com o tempo, com a distância, que não se desmanche pela falta de contato diário ou pela presença de lágrimas no lugar de risos.

Desejei sumir. Saberia então, se alguém se preocupa.
Saberia?

Se sumisse, todos se preocupariam, assim como todos ririam se eu contasse uma boa piada. Mas, após a excitação do retorno e o término da dor de barriga causada pela coxinha da festa de regresso, quem mais se importaria? Quem seria aquele que, após a piada, me perguntaria o que diabos eu tentava silenciar com gargalhadas tão altas?

Só o que suplico:

Se preocupem,
Se pósocupem,
Se ocupem de mim às vezes.



E boa noite.

31 de janeiro de 2009

O andar tranquilo

Andava apressadamente.
Um fim de tarde ensolarado, mas de um calor que não agredia.
Acariciava.
Um pé seguia o outro, instintivamente.
O vento bagunçava meu cabelo e, no entanto, eu não me incomodava.
Passei a pensar. Precisava botar meu pensar em dia.
Mas o meu pensar anda vagarosamente, por caminhos tortuosos.

Sua cronologia segue a instabilidade das nuvens, ora coberturas para refrescar, ora telas brancas, prontas para a pintura solar.
"Nuvens são interessantes", pensei.
E lembrei dos momentos em que olho para o céu e, talvez numa ilusão de uma mente doentia, ou num acesso de pureza extrema, digo: "O céu está alto hoje".
Não é piada, juro.
Há nuvens comuns, mundanas.
Há nuvens rasteiras, esquivas.
Há nuvens pequenas, isoladas.
Há nuvens aventureiras, amantes do vento.
E há aquelas nuvens.
Aquelas, infinitas.
Que mesmo cobrindo o sol, iluminam.
Seus contornos, definidos e inatingíveis, parecem esconder mais que o sol.
Escondem talvez o Olimpo, um pote de ouro.
Escondem a riqueza não-palpável do homem.
E estão lá.
Tão altas... e ao mesmo tempo, tão perto.
Hipnotizam.

"O céu está alto hoje."

Hoje elas não estavam lá. Que pena.
Talvez elas só existam para nos privar de uma rotina apressada e sem pausas.
Nem que por alguns singulares momentos apenas.
O céu estava baixo e me impeliu a olhar para os passos que dava.



-Nossa, que andar tranquilo!

Me perdi nessa frase.
Foi como um empurrão dado por um contestador de pensamentos.
Uma advertência do meu lado racional.
Acelerei meu raciocínio. Saí da ausência de obrigações em que tinha me metido.

Andava apressadamente.
Um pé seguia o outro, instintivamente.
O vento me incomodava, indo contra mim.
Pensava no objetivo, chegar à.
Não pensava mais em mim, indo para.
Não pensava mais nas nuvens, sem porquê.