Quando o pé dói tanto, torna-se preciso ascender.
Dói o chão pra não doer o céu.
Dói por medo de voar.
29 de abril de 2011
É quando a luz que retém ou que é retida pela sombra de uma grade na grama passa a te preocupar mais do que a sombra em si, quando pra saber se o que te molhou foi chuva, você passa alguns minutos tentando distinguir as gotas olhando as lâmpadas dos postes, para depois ficar com uma marca furta-cor na retina que causa um buraco no mundo. É quando, depois de presa num ônibus por três horas, o que te chama é a luz amarela da rua junto à vermelha dos carros à frente e à azul do bagageiro, e então você deseja antes uma câmera fotográfica ao celular que a passageira à esquerda usa para ligar pra casa e pedir aos pais que conversem com ela antes que ela tenha um colapso nervoso.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
24 de abril de 2011
22 de dezembro de 2010
shhh!
essa chuva
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
17 de outubro de 2010
Quando o vazio esvazia-se, o que vem é o vácuo, e o vácuo oprime, pressiona, faz ser mais lógica a explosão do que o apaziguamento.
Abraço âncoras disfarçadas de bóias, mas escondida eu nado em direção à superfície. Sem braços laçando, sem pés batendo, nado com os olhos, a cada dia mais impermeáveis. Mas, devagar, eles afundam também. Afoga-se num mar de lágrimas secas e não enxerga mais o que antes era tão nítido.
Mas tenho de ser racional. Sou o menor dos problemas.
Abraço âncoras disfarçadas de bóias, mas escondida eu nado em direção à superfície. Sem braços laçando, sem pés batendo, nado com os olhos, a cada dia mais impermeáveis. Mas, devagar, eles afundam também. Afoga-se num mar de lágrimas secas e não enxerga mais o que antes era tão nítido.
Mas tenho de ser racional. Sou o menor dos problemas.
talvez
Talvez a minha maior perda do período seja a perda da capacidade de explicação. A explicação, de certo modo, tornava o problema miniatura e, generosa, dava-me instrumentos para manipulá-lo. Não que o problema tenha deixado de ser brinquedo. Mas o brinquedo virou outro. Ou eu virei outra manipuladora. Como quando uma criança não sabe explicar porque o brinquedo se move ou como botam vida lá dentro. A diferença entre a criança e mim é que eu não me pergunto mais. Não faz diferença se há vida ali dentro. Apenas sento imóvel e o fito.
Olhar morto. Peixe morto – ou vivo, dentro de um aquário pequeno.
Olhar morto. Peixe morto – ou vivo, dentro de um aquário pequeno.
6 de outubro de 2010
No dia em que sofreu, qualquer cama teria espinhos. Os risos eram árvores entreabertas por raios, inertes diante da proposta do vento. Os suspiros - que só existem para fazer audível o que pode permanecer seu - só faziam endurecer a parafina derretida. As bocas que se estendiam em apoio só mostravam placas bacterianas e as carícias feitas só se faziam perceber se fossem seguidas pelos olhos. A água verteu apenas durante o tempo que seria convertido em litros e cobrado na conta de água no fim do mês e correu-lhe os dedos como que para convencê-los da sua materialidade. O beijo morno deitava em seu lábio mas este leito hanseníaco não incluía cobertor na hospedagem. Dormiu. Ou passou um certo tempo deitada até que o respirar - não suspirar - do vento sobre a cortina a fizesse abrir os olhos. Fechou-os. E seus olhos fechados piscaram durante a noite.
No dia seguinte ao dia em que sofreu, o céu embranqueceu.
No dia seguinte ao dia em que sofreu, o céu embranqueceu.
3 de outubro de 2010
Se o medo vier
de encarar os sentimentos de uma distância tão grande que se torne impossível encará-los,
de fazer curso de paraquedismo e sobre as nuvens querer chão,
da secura trincar o poço esvaziado,
do olho morto tomar lugar,
da resignação que de indício verdade se torna,
de chorar apenas pelas coisas certas,
do apenas,
que medo haverá?
de encarar os sentimentos de uma distância tão grande que se torne impossível encará-los,
de fazer curso de paraquedismo e sobre as nuvens querer chão,
da secura trincar o poço esvaziado,
do olho morto tomar lugar,
da resignação que de indício verdade se torna,
de chorar apenas pelas coisas certas,
do apenas,
que medo haverá?
11 de setembro de 2010
Embebedai-vos
“É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão.
Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-os para a terra,
é preciso embebedar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.
E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala,
na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”
(Charles Baudelaire)
Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-os para a terra,
é preciso embebedar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.
E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala,
na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”
(Charles Baudelaire)
Assinar:
Postagens (Atom)