Neste lugar solitário
Onde nem canta o sem-fim,
Choro. E um eco me responde
Ao choro que choro em vão.
Eco, responde bem certo,
Meus amigos me amarão?...
E o eco me responde: -Sim.
Pois então, eco bondoso,
Você que sabe a razão
Por que deixando o tumulto
De Paulicéia, aqui vim:
Eco, responda bem certo,
Maria gosta de mim?...
E o eco me responde: -Sim.
Antes morrer!... Eu me sinto
Tão vazio com este amor...
Não aguento mais meu peito!
Morrer! Seja como for!
Eco, responda bem certo,
Morrerei hoje, amanhã?...
E o eco me responde: - Nhãam...
26 de junho de 2011
31 de maio de 2011
8 de maio de 2011
Quica um, dois, três e afunda.
Ai, como eu queria saber que a dor não é só minha.
E ver no outro o reflexo de mim.
Mas a água é cada vez mais turva; seixos atirados na superfície.
Meu reflexo é a sombra do que era, embora continue molhado.
Ai, como eu queria que me adivinhassem as dores e tirassem os seixos dos bolsos.
E ver no outro o reflexo de mim.
Mas a água é cada vez mais turva; seixos atirados na superfície.
Meu reflexo é a sombra do que era, embora continue molhado.
Ai, como eu queria que me adivinhassem as dores e tirassem os seixos dos bolsos.
Metáfora, metonímia, pleonasmo e hipérbole.
Nas minhas longas leituras de Foucault - longas pelo grande tempo gasto em cada página -, uma passagem me pegou. E é justamente sobre a passagem que ela fala. Ele conta dos loucos que na idade média eram colocados em navios mercadores para expiar seus males na água, considerada um elemento purificador da alma. Medida de limpeza urbana, suponho. Mas o interessante é a conclusão em que ele chega:
Sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. (...) Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer.
Meu limiar pode não ser tão extenso, mas me aprisiona. Quem dera ser louca pra estar alheia. Acontece que é sempre transição, mas diferente da do louco, ela traz a expectativa de conhecer a terra em que se aportará. Mas é raro se ouvir um "terra à vista!", e mais raro ainda não desviar dela por qualquer outra coisa que surgiu "à vista" também. Quanto mais distante, o lugar onde se estava vai deixando de ser o que era, de falar como falava, de comer de boca aberta como comia, de sorrir como sorria, de cheirar como cheirava. De continente vai se tornando ilha e, enfim, apenas uma sujeira levemente arredondada no horizonte. E a minha loucura vem daí. Ela surge na distância. Surge no esquecimento. A memória do lugar é colorida só porque te falta à mão uma fotografia atual dele (a memória não tem caminhos de regresso, toda primavera antiga é irrecuperável e o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera). Ou então te mostram essa foto, mas você não consegue reconhecer nada nela além de mentira. Então você se questiona sobre a verdade que existia nessa relação. Nessa e noutras. Todas as outras. Todas as terras que você visitou. A verdade é o seu navio. O momento presente, que é fluido como a água. Vá lá, todo esse horizonte pode deturpar sua visão... O céu que reflete a água não reflete a terra tão bem, mas todo o seu pensamento vagueia com ele. Às vezes você se pega perseguindo um passarinho de 140 caracteres e ele traz notícias daquela terra. Mas a água está ao seu redor, sai dos seus olhos. A notícia é que a terra está seca. E a lição é aprendida na palmatória.
E se a Blanche, do bonde chamado desejo (ou a barca louca de Foucault?) diz que sempre dependeu da bondade de estranhos, eu digo que sempre dependi da bondade dos conhecidos, até eles se tornarem estranhos. Então a bondade espontânea vira súplica.
Sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. (...) Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer.
Meu limiar pode não ser tão extenso, mas me aprisiona. Quem dera ser louca pra estar alheia. Acontece que é sempre transição, mas diferente da do louco, ela traz a expectativa de conhecer a terra em que se aportará. Mas é raro se ouvir um "terra à vista!", e mais raro ainda não desviar dela por qualquer outra coisa que surgiu "à vista" também. Quanto mais distante, o lugar onde se estava vai deixando de ser o que era, de falar como falava, de comer de boca aberta como comia, de sorrir como sorria, de cheirar como cheirava. De continente vai se tornando ilha e, enfim, apenas uma sujeira levemente arredondada no horizonte. E a minha loucura vem daí. Ela surge na distância. Surge no esquecimento. A memória do lugar é colorida só porque te falta à mão uma fotografia atual dele (a memória não tem caminhos de regresso, toda primavera antiga é irrecuperável e o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera). Ou então te mostram essa foto, mas você não consegue reconhecer nada nela além de mentira. Então você se questiona sobre a verdade que existia nessa relação. Nessa e noutras. Todas as outras. Todas as terras que você visitou. A verdade é o seu navio. O momento presente, que é fluido como a água. Vá lá, todo esse horizonte pode deturpar sua visão... O céu que reflete a água não reflete a terra tão bem, mas todo o seu pensamento vagueia com ele. Às vezes você se pega perseguindo um passarinho de 140 caracteres e ele traz notícias daquela terra. Mas a água está ao seu redor, sai dos seus olhos. A notícia é que a terra está seca. E a lição é aprendida na palmatória.
E se a Blanche, do bonde chamado desejo (ou a barca louca de Foucault?) diz que sempre dependeu da bondade de estranhos, eu digo que sempre dependi da bondade dos conhecidos, até eles se tornarem estranhos. Então a bondade espontânea vira súplica.
29 de abril de 2011
É quando a luz que retém ou que é retida pela sombra de uma grade na grama passa a te preocupar mais do que a sombra em si, quando pra saber se o que te molhou foi chuva, você passa alguns minutos tentando distinguir as gotas olhando as lâmpadas dos postes, para depois ficar com uma marca furta-cor na retina que causa um buraco no mundo. É quando, depois de presa num ônibus por três horas, o que te chama é a luz amarela da rua junto à vermelha dos carros à frente e à azul do bagageiro, e então você deseja antes uma câmera fotográfica ao celular que a passageira à esquerda usa para ligar pra casa e pedir aos pais que conversem com ela antes que ela tenha um colapso nervoso.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
24 de abril de 2011
22 de dezembro de 2010
shhh!
essa chuva
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
17 de outubro de 2010
Quando o vazio esvazia-se, o que vem é o vácuo, e o vácuo oprime, pressiona, faz ser mais lógica a explosão do que o apaziguamento.
Abraço âncoras disfarçadas de bóias, mas escondida eu nado em direção à superfície. Sem braços laçando, sem pés batendo, nado com os olhos, a cada dia mais impermeáveis. Mas, devagar, eles afundam também. Afoga-se num mar de lágrimas secas e não enxerga mais o que antes era tão nítido.
Mas tenho de ser racional. Sou o menor dos problemas.
Abraço âncoras disfarçadas de bóias, mas escondida eu nado em direção à superfície. Sem braços laçando, sem pés batendo, nado com os olhos, a cada dia mais impermeáveis. Mas, devagar, eles afundam também. Afoga-se num mar de lágrimas secas e não enxerga mais o que antes era tão nítido.
Mas tenho de ser racional. Sou o menor dos problemas.
talvez
Talvez a minha maior perda do período seja a perda da capacidade de explicação. A explicação, de certo modo, tornava o problema miniatura e, generosa, dava-me instrumentos para manipulá-lo. Não que o problema tenha deixado de ser brinquedo. Mas o brinquedo virou outro. Ou eu virei outra manipuladora. Como quando uma criança não sabe explicar porque o brinquedo se move ou como botam vida lá dentro. A diferença entre a criança e mim é que eu não me pergunto mais. Não faz diferença se há vida ali dentro. Apenas sento imóvel e o fito.
Olhar morto. Peixe morto – ou vivo, dentro de um aquário pequeno.
Olhar morto. Peixe morto – ou vivo, dentro de um aquário pequeno.
6 de outubro de 2010
No dia em que sofreu, qualquer cama teria espinhos. Os risos eram árvores entreabertas por raios, inertes diante da proposta do vento. Os suspiros - que só existem para fazer audível o que pode permanecer seu - só faziam endurecer a parafina derretida. As bocas que se estendiam em apoio só mostravam placas bacterianas e as carícias feitas só se faziam perceber se fossem seguidas pelos olhos. A água verteu apenas durante o tempo que seria convertido em litros e cobrado na conta de água no fim do mês e correu-lhe os dedos como que para convencê-los da sua materialidade. O beijo morno deitava em seu lábio mas este leito hanseníaco não incluía cobertor na hospedagem. Dormiu. Ou passou um certo tempo deitada até que o respirar - não suspirar - do vento sobre a cortina a fizesse abrir os olhos. Fechou-os. E seus olhos fechados piscaram durante a noite.
No dia seguinte ao dia em que sofreu, o céu embranqueceu.
No dia seguinte ao dia em que sofreu, o céu embranqueceu.
3 de outubro de 2010
Se o medo vier
de encarar os sentimentos de uma distância tão grande que se torne impossível encará-los,
de fazer curso de paraquedismo e sobre as nuvens querer chão,
da secura trincar o poço esvaziado,
do olho morto tomar lugar,
da resignação que de indício verdade se torna,
de chorar apenas pelas coisas certas,
do apenas,
que medo haverá?
de encarar os sentimentos de uma distância tão grande que se torne impossível encará-los,
de fazer curso de paraquedismo e sobre as nuvens querer chão,
da secura trincar o poço esvaziado,
do olho morto tomar lugar,
da resignação que de indício verdade se torna,
de chorar apenas pelas coisas certas,
do apenas,
que medo haverá?
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