vivo esperando que as pessoas me digam que juro que não sei o que gostaria que elas me dissessem apenas digam mesmo que não seja nada mesmo que seja um nada ou um nada muito importante ou algo importante que você não vai dizer por não confiar mais em mim ou por achar que vai reatar qualquer coisa se começar qualquer assunto comigo mesmo que seja um feliz natal de merda eu aceito não dói dizê-lo a não ser pra quem espera ou pra quem o diz com amigdalite mas não te peço nada dito apenas escrito apenas um aceno apenas um estou aqui e ainda penso em você de vez em quando quase nada mas o suficiente pra te dedicar uma palavra um feliz natal de merda e então me pouparia de viver esperando de qualquer um qualquer coisa que se pareça com uma lembrança mal resolvida que quer ser lembrada ou com uma vontade de continuar aquela conversa de bar que virou uma coisa e outra e outra e outra e foi virando até começar a dar vontade de ser mais e se você fizesse isso meu deus! eu mandaria pro inferno essa amígdala que dói a cerveja que eu bebi hoje e deixaria de ser essa mulher de livro de auto-ajuda que sem querer me torno às vezes que espera supondo que a espera desperta a espera no outro e o outro cansado de esperar vai te procurar te lembrando assim que você havia deixado de esperar há muito tempo e te fazendo crer piamente que as coisas acontecem quando você menos espera, quando você menos espera!
e é por isso que eu vou esperar só mais um pouquinho agora.
17 de janeiro de 2012
12 de janeiro de 2012
sempre olhar pra fora idealizando o que seria o outro dentro
(um outro dentro)
(um outro dentro)
um dentro só não molha
e um fora é só o que há entre dois dentros
manter-se em local úmido e arejado
de preferência com a face voltada pra cima
pra que as estrelas não caiam na calha sem serem vistas
fora do alcance
pra que as estrelas não caiam na calha sem serem vistas
fora do alcance
fora
das roupas
das roupas
da sobriedade
lá onde os outros estão
pedindo pra você entrar, e ficar.
9 de julho de 2011
8 de julho de 2011
tudo é um não
a boca, o quarto desarrumado
a mãe, o horóscopo do domingo
sua metade racional e irracional do cérebro
as horas dizem não
o toque que não toca
é ele quem mais diz não
até os dentes que sorriem sim dizem não
e você acredita em todos eles
grita não
mas é que no fundo
lá, bem perto do carpete puído e dos fiapos do cobertor
você é sim
o resto é que é não
até o tutu de feijão que sua mãe fez
não te espera
esfria mais rápido do que o sim que você demorou demais pra dar.
hipoglós
a bunda num sofá Casas Bahia
duro, é duro.
duro, velho e feio.
especialmente feio.
não pode se jogar nele, não
a aflição nesse caso exige parcimônia
pra não machucar as nádegas
nádegas, eu digo
porque nada mais machuca além do sofá Casas Bahia
nada, além das nádegas
que sofrem só a dor de cair em pranto no sofá Casas Bahia
de dura, velha e feia
só a dor que senta nele
e ele que senta na dor.
penetração
adentrar o corpo
e de dentro
tentar manipular os membros
veias-fios de manipulação
mas você sabe que tal qual um dedo na goela
foi assim que você entrou
nauseando
tirando a espontaneidade da língua
sem ser de lá
sem ser de fora
um corpo estranho num corpo estranho
e as pessoas comentam esse tipo de coisa.
26 de junho de 2011
Eco e o Descorajado (Mário de Andrade)
Neste lugar solitário
Onde nem canta o sem-fim,
Choro. E um eco me responde
Ao choro que choro em vão.
Eco, responde bem certo,
Meus amigos me amarão?...
E o eco me responde: -Sim.
Pois então, eco bondoso,
Você que sabe a razão
Por que deixando o tumulto
De Paulicéia, aqui vim:
Eco, responda bem certo,
Maria gosta de mim?...
E o eco me responde: -Sim.
Antes morrer!... Eu me sinto
Tão vazio com este amor...
Não aguento mais meu peito!
Morrer! Seja como for!
Eco, responda bem certo,
Morrerei hoje, amanhã?...
E o eco me responde: - Nhãam...
Onde nem canta o sem-fim,
Choro. E um eco me responde
Ao choro que choro em vão.
Eco, responde bem certo,
Meus amigos me amarão?...
E o eco me responde: -Sim.
Pois então, eco bondoso,
Você que sabe a razão
Por que deixando o tumulto
De Paulicéia, aqui vim:
Eco, responda bem certo,
Maria gosta de mim?...
E o eco me responde: -Sim.
Antes morrer!... Eu me sinto
Tão vazio com este amor...
Não aguento mais meu peito!
Morrer! Seja como for!
Eco, responda bem certo,
Morrerei hoje, amanhã?...
E o eco me responde: - Nhãam...
31 de maio de 2011
8 de maio de 2011
Quica um, dois, três e afunda.
Ai, como eu queria saber que a dor não é só minha.
E ver no outro o reflexo de mim.
Mas a água é cada vez mais turva; seixos atirados na superfície.
Meu reflexo é a sombra do que era, embora continue molhado.
Ai, como eu queria que me adivinhassem as dores e tirassem os seixos dos bolsos.
E ver no outro o reflexo de mim.
Mas a água é cada vez mais turva; seixos atirados na superfície.
Meu reflexo é a sombra do que era, embora continue molhado.
Ai, como eu queria que me adivinhassem as dores e tirassem os seixos dos bolsos.
Metáfora, metonímia, pleonasmo e hipérbole.
Nas minhas longas leituras de Foucault - longas pelo grande tempo gasto em cada página -, uma passagem me pegou. E é justamente sobre a passagem que ela fala. Ele conta dos loucos que na idade média eram colocados em navios mercadores para expiar seus males na água, considerada um elemento purificador da alma. Medida de limpeza urbana, suponho. Mas o interessante é a conclusão em que ele chega:
Sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. (...) Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer.
Meu limiar pode não ser tão extenso, mas me aprisiona. Quem dera ser louca pra estar alheia. Acontece que é sempre transição, mas diferente da do louco, ela traz a expectativa de conhecer a terra em que se aportará. Mas é raro se ouvir um "terra à vista!", e mais raro ainda não desviar dela por qualquer outra coisa que surgiu "à vista" também. Quanto mais distante, o lugar onde se estava vai deixando de ser o que era, de falar como falava, de comer de boca aberta como comia, de sorrir como sorria, de cheirar como cheirava. De continente vai se tornando ilha e, enfim, apenas uma sujeira levemente arredondada no horizonte. E a minha loucura vem daí. Ela surge na distância. Surge no esquecimento. A memória do lugar é colorida só porque te falta à mão uma fotografia atual dele (a memória não tem caminhos de regresso, toda primavera antiga é irrecuperável e o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera). Ou então te mostram essa foto, mas você não consegue reconhecer nada nela além de mentira. Então você se questiona sobre a verdade que existia nessa relação. Nessa e noutras. Todas as outras. Todas as terras que você visitou. A verdade é o seu navio. O momento presente, que é fluido como a água. Vá lá, todo esse horizonte pode deturpar sua visão... O céu que reflete a água não reflete a terra tão bem, mas todo o seu pensamento vagueia com ele. Às vezes você se pega perseguindo um passarinho de 140 caracteres e ele traz notícias daquela terra. Mas a água está ao seu redor, sai dos seus olhos. A notícia é que a terra está seca. E a lição é aprendida na palmatória.
E se a Blanche, do bonde chamado desejo (ou a barca louca de Foucault?) diz que sempre dependeu da bondade de estranhos, eu digo que sempre dependi da bondade dos conhecidos, até eles se tornarem estranhos. Então a bondade espontânea vira súplica.
Sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. (...) Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer.
Meu limiar pode não ser tão extenso, mas me aprisiona. Quem dera ser louca pra estar alheia. Acontece que é sempre transição, mas diferente da do louco, ela traz a expectativa de conhecer a terra em que se aportará. Mas é raro se ouvir um "terra à vista!", e mais raro ainda não desviar dela por qualquer outra coisa que surgiu "à vista" também. Quanto mais distante, o lugar onde se estava vai deixando de ser o que era, de falar como falava, de comer de boca aberta como comia, de sorrir como sorria, de cheirar como cheirava. De continente vai se tornando ilha e, enfim, apenas uma sujeira levemente arredondada no horizonte. E a minha loucura vem daí. Ela surge na distância. Surge no esquecimento. A memória do lugar é colorida só porque te falta à mão uma fotografia atual dele (a memória não tem caminhos de regresso, toda primavera antiga é irrecuperável e o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera). Ou então te mostram essa foto, mas você não consegue reconhecer nada nela além de mentira. Então você se questiona sobre a verdade que existia nessa relação. Nessa e noutras. Todas as outras. Todas as terras que você visitou. A verdade é o seu navio. O momento presente, que é fluido como a água. Vá lá, todo esse horizonte pode deturpar sua visão... O céu que reflete a água não reflete a terra tão bem, mas todo o seu pensamento vagueia com ele. Às vezes você se pega perseguindo um passarinho de 140 caracteres e ele traz notícias daquela terra. Mas a água está ao seu redor, sai dos seus olhos. A notícia é que a terra está seca. E a lição é aprendida na palmatória.
E se a Blanche, do bonde chamado desejo (ou a barca louca de Foucault?) diz que sempre dependeu da bondade de estranhos, eu digo que sempre dependi da bondade dos conhecidos, até eles se tornarem estranhos. Então a bondade espontânea vira súplica.
29 de abril de 2011
É quando a luz que retém ou que é retida pela sombra de uma grade na grama passa a te preocupar mais do que a sombra em si, quando pra saber se o que te molhou foi chuva, você passa alguns minutos tentando distinguir as gotas olhando as lâmpadas dos postes, para depois ficar com uma marca furta-cor na retina que causa um buraco no mundo. É quando, depois de presa num ônibus por três horas, o que te chama é a luz amarela da rua junto à vermelha dos carros à frente e à azul do bagageiro, e então você deseja antes uma câmera fotográfica ao celular que a passageira à esquerda usa para ligar pra casa e pedir aos pais que conversem com ela antes que ela tenha um colapso nervoso.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
O mundo desaba e você vende flores artificias para cabelos.
E o detalhe é o que te mantém sã.
24 de abril de 2011
22 de dezembro de 2010
shhh!
essa chuva
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
além do molhado
traz gotas que engordam e choram na janela do ônibus
traz rodamoinhos de asfalto que se formam no passo sob a chuva
traz vontade de estar seca
por mais seca que já se esteja
de se secar mais
de mais secar
secar demais
de deitar de barriga pra cima
de não ter teto
de sentir a gota sem o frio da gota
sentir o quente da gota
e secar
ser seca
fechar os olhos e ouvir as folhas negras respirando sem foto nem síntese dançando pulando como camas trampolins de gotas gordas que caem
braço mais braço mais perna mais perna
secando
te ter aqui
junto com a
gota
gota
gota
gota
gota
gota
gota
plop.
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