18 de dezembro de 2015

aos presentes

tamires sempre me diz coisas inteligentes. ela atravessa grades e crê no amor que não tem fronteiras nos artigos possessivos
um dia ela me disse que "o tempo é o verdadeiro presente, o mais valioso"

me disse que presentear tempo às coisas e às pessoas é estar. simples.
simples como um daqueles pensamentos que saem pingo a pingo de uma fenda, azeitando a pedra não acarinhada há muito, formando lábios com a lama que se acumula nas laterais. e num dia como esse, a fissura com lábios e língua se abre em boca imensa que não cala, inundando de rejeitos a sua rotina antes tão limpa.

um lamaçal de pequenos pensamentos tóxicos
rejeitados
que aumenta as distâncias - ou faz percebê-las, tanto faz
aceno a vocês da margem oposta, e penso que talvez pensem o mesmo


do pensamento:
que estamos perdendo tempo fazendo projetos de barcos que nos levem à outra margem
perdendo tempo fazendo cronogramas para não colher a madeira costurar a vela e talhar os remos ao mesmo tempo
perdendo o tempo fazendo tudo ao mesmo tempo
perdendo tempo tentando descobrir como vencê-lo, como ultrapassá-lo funcionalmente, comendo linhaça e misturando chia ao suco verde
perdendo o tempo calculando nossas horas extras
e comparando o valor de nossas horas (R$13, 96) empregadas em perda de tempo 
perdendo o tempo das rugas, dos tremores, das primeiras palavras, das últimas
perdendo o tempo na tentativa de esquecer que os cinco anos de um bebê não te fazem mais velho, mas fazem do bebê não mais um bebê

perdendo o tempo tentando encaixá-lo numa agenda da google

perdendo tempo pensando que estamos perdendo tempo
e querendo fazer algo com o tempo, escrever sobre isso

perdendo tempo até a lama secar e continuarmos pensando se vale a pena atravessar já que você nem acenou de volta



2 de setembro de 2014

Kelvin

meu amigo,

hoje me dei conta de que passaram dez anos de nós. 
de nós juntos. de nós-riso, de nós-choro. de nós-trio sempre a ser completado.

meu irmão me deu de presente antecipado de aniversário esse pensamento, enquanto demonstrava tudo num lenço:
"imagine a sua vida como um cinto ou um lenço, ou um cordão. a dos outros também. 
vidas tesas, frouxas, flexíveis. vidas que seguem seu próprio caminho respeitando apenas a própria textura, a própria tessitura. algumas dessas vidas ondulam, outras arrebentam, umas outras permanecem com a mesma aparência por toda a sua existência, até amarelarem nas bordas. 
mas às vezes, o seu lenço enrosca em outro.
pode ser apenas um desvio, mas bastou esse encontro para alterar sua vida por completo. (veja o que acontece quando dois lenços esticados tentam se cruzar. afeto. afetação.)
nos relacionamentos duradouros, isso fica mais grave. seu lenço se envolve tão profundamente com o outro que fica difícil distinguir uma trança de um nó de marinheiro ou de uma espiral de dna.
a separação das cordas ou lenços, nesses casos, é mais dolorosa. 
mas note: uma corda que por anos se condiciona a um formato, quando se libera, permanece com a sua ondulação. assim é que os envolvidos em relacionamentos longos ficam depois de uma separação. ondulados. perpetuados nessa sensação de pertencimento.
para essas pessoas, a presença do outro é constante. necessária, mas não obrigatória.
para essas cordas, a lembrança vale mais que a dependência do convívio."

vi nossa amizade nisso 
no nosso modo particular de ser amigo. de deixar livre.

te amo.
e te quero ondulando a minha vida por mais quantos anos você quiser.

27 de abril de 2014

com a necessidade de um título

Sinto-me em necessária bebedeira
Sujeita, pois não, a essa edição que o delete nos presenteia
De apagar o que dizemos
Mas no Word, porém
Que não publica nada a cada enter que damos.
E que nos faz introduzir qualquer letra que nos esquecemos
Ou qualquer SC que escrevemos sem pensar.
E agora já estou pensando
Em todos os erros
Que cometemos na vida sem pensar em poesia
Que a poesia se edita.
Se consome de rimas.
(se consuma de rimas)
e de parentêses
A poesia também vem de um teclado
E porque não?
Por que é separado na pergunta.
Ai, ser publicado.
O ser publicado.

É difícil, é difícil.
e de repente me vejo corrigindo tudo o que o texto trouxe.

1 de setembro de 2013

Av. Brigadeiro Luis Antônio, 1343

Num canto, um saco de lixo preto que às vezes respira.

De plástico negro, moldado, impermeável, sabe-se lá que lixo orgânico o preenche. Reside nas madrugadas da mesma calçada há tempos. Habita o horário que segue a passagem do lixeiro.
E sempre que passo, a mesma sensação. E se passar pela cabeça de alguém, um dia, recolher esse saco? E se o lixeiro atrasar? Se ocorrer a alguém botá-lo num desses grandes caminhões, a mercê de um destino comum a tudo que descartamos? Se alguém tentasse abri-lo? O que queimaria se um cigarro fosse esquecido aceso ali por um transeunte distraído?

Um ruído se ouviria, penso eu. 
Um gemido tão bêbado que não passaria de ruído
Nenhuma reclamação surgiria de um saco de lixo que vive para não atrapalhar a passagem.

E no entanto eu vi ali algo se mexer.


no plano das nuvens (ou do topo do banco Safra)

(Uma flauta transversal ao fundo)
Hoje, à espera de um ônibus, eu pensei em fazer um texto, um curta-metragem, uma cena, algum tipo de criação a respeito dos sonhos das pessoas. Em particular das pessoas que passam por este ponto da Paulista. Dessa gente que diz "antes na Paulista que em Diadema, né!", enquanto ri para a outra que nesse momento se pega pensando que deveria estar vestindo algo melhor. Ou daquelas que param no meio do caminho, merecendo o soslaio indignado de alguém que certamente receberia a culpa e com ela mais parcelas do seguro do carro, acaso estivesse em um, e acaso tivesse batido na traseira deste outro distraído e irresponsável. Este, retomo agora, que parou no meio do caminho e olhou pra trás, como se esperasse por alguma coisa. A acontecer ou já acontecida, esperando talvez que algo fosse remediável, ainda que só o que se visse fosse um pedaço do tênis entrando no metrô, e não a imagem esperada, a imagem correspondente ao grito que se ouviu (ou que se pensou ouvir) de uma pessoa à sua espera.

A rua se trata de pessoas que olham. Não que sonham.
E no que elas olhavam é que eu percebi. Não há sonhos.
Sonhos são criações imediatas. De um imediatismo relativo ao olhar.
O sonho se dá a medida que se olha.
Os sonhos são, necessariamente, as pessoas que passam por nós. São as pessoas que nós gostaríamos de ser e que elas são. São as vidas que gostaríamos de ter e que elas têm. São as coisas pelas quais gostaríamos de passar e que elas passaram. Mas também são os grandes prédios que gostaríamos de conhecer por dentro. São mesmo os coqueiros dos canteiros centrais da avenida que nos remetem à praia. São os quinze segundos de uma flauta audível e do desejo de estudar música. São os agradecimentos do músico aos seus cinquenta centavos enquanto canta Disfarça e Chora sorrindo.
E por que diabos se fala de sonho tanto para o que ocorre no inconsciente durante o sono quanto para o que nos motiva a continuar - não acredito que vou usar esse termo - lutando? O sonho do dormir é aquele que se esquece, é aquele cuja procedência não importa, cujo resultado não interessa, cujas pessoas envolvidas às vezes é melhor nem lembrar. Em que se assemelha este ao sonho de comprar um carro vermelho, de financiar uma casa - um sobrado, de morar na Vila Madalena ou de casar e constituir uma família? Tudo esperado, agendado, parcelado igualmente em 36 vezes com uma entrada que eu ainda não tenho completa, com pessoas das quais eu já sei o sobrenome e o endereço.
O interesse do sonho está no instante em que não se acorda. Quando já acordado, esse interesse está no instante em que o sonho não vale nada. A beleza é exatamente a sua inutilidade, e é por isso que não se pensa neles. Sonhar com um cardigã azul na Hering que a mãe não quer dar por ser uma roupa de meia-estação e esse tipo de roupa não dura muito pode pegar mal, assim como sonhar em ter um dia uma risada sonora de alguma dessas velhas que riem de coisas simples porque "se eu só pensar no preço do feijão, benzadeus, onde a gente vai parar!" não parece digno de ser sonho, ou parar no meio da rua enquanto se pergunta "como raios ele faz essa coisa azul brilhante voar tão alto, chegando ao topo desses prédios que eu nunca vou entrar e descer macio, pousando na mesma mão que a lançou, sem esforço?" não parece um motivo bom pra parar no meio da rua e ser tachado de criança.

O olhar inútil, o sonho gratuito.
E o meu ônibus chegou.

19 de abril de 2013

dos relógios que se fundiam como queijos cremosos

Caí no acordar de um sono leve, sem sobressaltos. Sobre mim um cobertor parayba colocado durante o sono, sabe-se lá por quem. Ao redor, um cheiro de molho e de alguma memória que eu deveria ter. E essa sempre mesma queixa de algum sonho esquecido, de mais um abrir-se de olhos que apaga a um tempo o universo de um beijo, de um desmoronamento, de um subir eterno de escadas, de um parente falecido ou do mais lúdico monstro marinho com asas, oras.
E no torpor de um molho e de um sono incompleto, lembrei de um trecho de um livro da infância. A história sem fim. Um clichê sem esforço para quem há muito não se lembra de sonho algum, além daqueles do dia-a-dia que só nos fazem trabalhar mais para atingí-los. Gosto mesmo dos sonhos desinteressados, que não se dão ao trabalho nem ao menos de serem lembrados. Compartilho esse trecho, achado a duras penas pra lembrar de vez em quando que "todo o reino de Fantasia assenta-se sobre alicerces de sonhos esquecidos".

"Atrás da cabana havia uma grande torre de madeira e, por baixo, um poço que conduzia verticalmente às profundezas da terra. Dirigiram-se para lá, atravessando a neve. Bastian viu então imagens sobre a neve, como se fossem jóias preciosas incrustadas em seda branca.
Eram placas muito finas de uma espécie de mica transparente e colorida,de todas as formas e tamanhos, quadradas e redondas, fragmentadas ou inteiras, algumas do tamanho de vitrais, outras pequenas como a miniatura da tampa de uma caixinha. Estavam dispostas em filas na neve, ordenadas de acordo com o tamanho e a forma, e as filas eram tão compridas que se estendiam até o horizonte da grande planície branca.
Essas imagens eram enigmáticas. Havia figuras disfarçadas que pareciam flutuar num grande ninho de pássaros, burros com togas de juizes, relógios que se fundiam como queijos cremosos, ou ainda marionetes em praças iluminadas onde não havia ninguém. Havia rostos e cabeças constituídos por figuras de animais e outros que formavam paisagens. Mas havia também imagens normais, homens que ceifavam um campo de trigo e mulheres sentadas numa varanda. Havia aldeias alpestres e paisagens marinhas, cenas de guerra e espetáculos de circo, ruas e quartos, e novamente rostos, velhos e novos, inteligentes e idiotas, de loucos e de reis, tristes e alegres. Havia imagens aterradoras, de execuções e danças macabras, e imagens alegres de jovens damas, cavalgando um cavalo marinho, ou de um nariz que passeava sozinho e era cumprimentado por todos os transeuntes.
Quanto mais passeavam ao longo das imagens, menos Bastian compreendia o seu significado. Só percebia uma coisa: havia nelas tudo o que existia, se bem que por vezes numa estranha combinação. Depois de ter andado durante muitas horas ao lado de Yor e ao longo das filas de imagens, o crepúsculo caiu sobre a extensa planície nevada. Voltaram para a cabana. Depois de ter fechado a porta, Yor perguntou em voz baixa:
— Você reconheceu alguma?
— Não, replicou Bastian.
O mineiro balançou pensativamente a cabeça.
— Por quê?, quis saber Bastian. Que imagens são aquelas?
— São os sonhos esquecidos do mundo dos homens, explicou Yor. Depois de ter sido sonhado, um sonho não pode desaparecer. Mas quando o homem que o sonhou o esquece, para onde vai? Vem para cá, para junto de nós, em Fantasia, e fica enterrado nas profundezas da terra. É ali que estão os sonhos esquecidos, em camadas muito finas dispostas umas sobre as outras.
Quanto mais fundo se cava, mais espessas são essas camadas. Todo o reino de Fantasia assenta-se sobre alicerces de sonhos esquecidos."

24 de fevereiro de 2013

Maria José, 123

O lado de fora da casa de um velho tem mais cores.
Pela ausência da catarata, talvez. Pelos olhos de quem ainda não os têm opacos, daquela cor acinzentada que só olhos velhos têm.

De fora da casa de um velho, há gente colorida, há casas antigas pintadas pela prefeitura pra valorizar o bairro tradicional, há crianças jogando uma bola amarela, há um cheiro de pão recém saído do forno, há um gosto de cerveja choca no bar da frente, há o batuque do terreiro lá de trás, há uma calçada sem vagas para mais carros - estes sim, pretos e pratas, apenas -, há mulheres de cabelos feitos - não sem um ou outro fio espigado pra cima, esse clima anda terrível - saindo dos muitos salões ao redor, há alguma briga acontecendo num apartamento por ali, há um velho que, sorrindo, espia a rua duma janela.

De dentro da casa de um velho, há poucos vizinhos que o viram sem cabelos brancos vivos, há o barulho de relógio de corda, um cheiro de velhice na cristaleira, há espelhos cobertos, há um ou outro cumprimento de cabeça com os conhecidos que passam, há um sorriso constante nos lábios, não há tanto cheiro, não há tanta cor, não há tanto sentido nas coisas e nas pressas de quem passa, não há espaço para jogarem bola com todos esses carros - a prefeitura deveria fazer alguma coisa, há sempre lixo remexido na frente também -, há uma porção de gente temporária, há o pãozinho que a vizinha trouxe pensando na espinhela caída, há um suspiro longo que dói de vez em quando e há aquela menina que, curiosa,  sempre anda no outro lado da rua olhando em sua direção.

Um dia ela descobre que não há pernas que aguentem todas essas cores do lado de fora.

16 de fevereiro de 2013

num mês

isso de ser livre
e de ter que pagar o aluguel
de transar em casa
e viver de desencontros
isso de ansiar
de esperar mesmo assim
isso de não se importar
e de fingir que não se importa
isso de apreciar a vista
e de sentir que é vasta demais

vai desgastando
vai perdendo a tinta
vai me arrastando pro fim da noite

é a cota do dia.

meu bem, meu bem

eu  paro no eu
que desgraça parar aí sempre
neste pronome mais recorrente que o seu
mas que vem sempre acompanhado do com
com você, com outro qualquer
foi nisso que eu me peguei diante da janela
fumando meus cigarros
(que eu comprei pela primeira vez, junto com um isqueiro preto)
e tragando um pronome que não existe na norma culta
tragando você
sem a pressão baixa que o cigarro sempre traz
só com
só com o aperto no peito que a fumaça causa
e os pronomes que a véspera faz pensar
no eu, no eu,
jesus, eu sou egoísta
mas de ego em ego eu vou me curando de ti
ou repudiando o ti porque não sou gaúcha
e piorando a minha bronquite.

9 de fevereiro de 2013

uma radial leste de carnaval

num fechar de olhos a quebra da onda, o aspirar do vento, a rebentação caprichosa, a calmaria da água reversa
os pés afundando
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

num abrir de olhos a porta fechada, o barulho de pneus confeitando a água de chuva no asfalto, quilômetros inteiros sendo completados à altura dos olhos
os pés doendo
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

16 de janeiro de 2013

miojo de madrugada

ando enxarcando as meias, limpando algumas mesas
ando me acostumando aos pêlos brancos e ao sono
de vez em quando me doem tanto as pernas que só me valem as 50 gotas diárias
50 gotas de qualquer coisa já vale, dizem
os gatos dormem sempre voltados para o oeste, por aqui
nada muito nobre aqui na baixo augusta
as putas já me cumprimentam
já aceito cervejas de graça
e o porteiro acorda por minha causa
além dele, o vizinho talvez (a porta faz barulho)
na geladeira, coalhada e farofa
divido a cama com dois gatos e um alguém que chega
e recomeço uma coleção de garrafas a cada retorno
no mais, a sua falta de tato
não anda compensando o tato que falta

mas vamos marcar, sim.

5 de novembro de 2012

finadose

dose de conhecimento
dose de inércia
dose de telefonema para amigos
dose de portas batidas
dose de vinho
dose de cultura para artistas
dose de rivotril com nova schin
dose de caetano veloso
dose de coca-cola
dose de complacência
dose de tontura ao telefone
dose de obsessão pela pessoa pré-amada
dose de esmalte
dose de consultas ortográficas ao google
dose de poesia que se pretende atemporal
dose de poesia que não se pretende nada pois cita o google
dose de insônia
dose de cerveja
dose de cheiro de urina velha do anhangabaú
dose de de novo não
dose de dor de sempre no pé
dose de cena fictícia sendo decorada com a janela aberta
dose de não vou, mas estou aqui pra qualquer coisa
dose de um cabelo muito armado
dose de um ou mais banhos adiados
dose de uma irmã com labirintite
dose de filmes longos em italiano


Daí, um legítimo coquetel de feriado
(e um grande desperdício de ingredientes).

28 de outubro de 2012

um texto de algum tempo sem conjugação

Me peguei assim de repente entre o vir e ir.
Apnéia é a metáfora. A quase dor que surge entre o inspirar e o expirar.
O tempo suspenso num ar represado, o tal tempo dolorido do presente.
O tempo de ver-se a um só tempo diante de um futuro reticente e de um passado cheio de certezas irrevogáveis.

É o tempo da reza úmida, que chora pelos que foram, pelos que estão indo, pelos que irão.
Só um aperto na garganta denuncia o futuro. Mas pode ser gripe.
Fato é que me vi assim, sem pertencer nem ao futuro nem ao passado de ninguém. Mas com correntes em volta de mim mesma, que me puxam para qualquer destino próprio. Quisera ter correntes nos olhos, para que eles não se perdessem na paisagem dos presentes alheios. Sinto falta de ser presente. Sinto falta do passado. Sinto falta dos futuros já substituídos. O que poderia ser somado ao que parece ter sido e ao que é...



luz quieta

O serviço funerário de São Bernardo não tem sirene.
Um carro branco, geladeira de almas, com uma luz azul-movente por cima, sinaleiro de espíritos. Eis tudo.
Como os doentes e criminosos, não teriam os mortos também alguma urgência no deslocamento? Não deveriam também ser autorizados a abrir passagem por entre a corrente de viventes - estes, aos quais não mais importam nem os doentes, nem os criminosos, nem os mortos, nem as sirenes azuis silenciosas (a não ser quando sonoras e vermelhas)?
Não, não é a morte que alardeia, que precisa ser vista. Esta é a sua fuga - composta por indiscretas sirenes que impedem uma conversa num café e que fazem de um motorista comum um exímio executor de clareiras no trânsito fechado. A um tempo fugitivos e cúmplices na fuga, na sempre fuga nossa de cada dia, como num replay ad eternum de um filme da seção Aventura da Blockbuster (Suspense, Terror, Pornô...), somos embalados por iós e banhados de vermelhidão luminosa e plasmática.
E, no entanto, no silêncio das buzinas de todo dia, obedecemos ao sinal-vermelho-fechado e não nos atrai a atenção um faroleiro azul ao lado, a própria morte no banco do passageiro num carro branco demais para sua  presença.

Aos viventes, a cromoterapia adverte: Deem preferência ao azul para momentos de relaxamento. As tonalidades do azul - principalmente as que tendem ao pastel - são altamente recomendadas pelos cromoterapeutas na pintura de ambientes tranquilos como quartos e banheiros, pois trazem ao habitante uma sensação de serenidade e paciência, bastante adequada ao sono.

27 de julho de 2012

Algo sobre a nova matriz da minha cidade

Uma nuvem rosa me fez pensar num exercício de dramaturgia.

Lamentando-se depois de um mato cutucar-lhe a orelha (um desses matinhos abusivos, nem excessivamente altos, nem excessivamente baixos, plantados pela prefeitura para denunciar quem se esconde e não incomodar quem sente falta de verde), um senhor diz a outro: 

- É... Conseguiram o que queriam. Tiraram daqui o que havia para olhar. Pra digestão do almoço agora é queimar os olhos nesse branco refletido vendo os carros e os prédios e o recapeamento bem feito e o novo revestimento de pedra da praça e o Santander e um ou outro mato que entra na orelha.

- Verdade,
Fica só o pipoqueiro como restolho poético.
E a manca que parece abalada pelas novas curvas futuristas do chão.
E a menina que aponta pra "lua e o sol no mesmo céu!" às 17:30.
E o sol que se apaga, acendendo as luzes brancas dos holofotes. (engraçado como tudo virou lua de repente, não se encontram mais luzes amarelas no Center Castilho)
E vez ou outra um sinal da cruz.
E os sinos! E a gravação da Ave Maria!
"Hoje é dia de missa de sétimo dia, não de casamento"
E essa igreja agora com cheiro de cimento
Este é o meu sangue
Este é o meu corpo
Corpo de cálcio
De cal
Olhos calcificados
olhando de soslaio (talvez tentando entender por que o sino atrapalha a melodia farfalhante de suas sacolas desse jeito tão harmonioso)
E enquanto isso o pipoqueiro faz barulho pra tirar pedras brancas de um bueiro branco quebrado e varre o chão levantando poeira branca e lava as mãos numa água branca e a pipoca branca esfria, branca.


-É, cimentaram tudo, mas por fim não tiraram daqui o que havia para olhar.