27 de julho de 2016

dorme

eu queria ter estado mais perto
enquanto te beijo em cada parte do rosto
é inevitável querer estar mais perto mesmo assim
enquanto te abrigo no meu colo, enquanto te molho a nuca para te impedir de cair no sono
eu ainda não entendo tão bem a ânsia de não viver
queria ter estado mais perto pra ver se entendia assim, por toque
ainda não entendi
porque amar é só o que se sabe
e quando se ama se quer vivo
mesmo tracejando assim, com qualquer bic, uma nova linha da vida na sua mão direita

te desejo o oposto do teu desejo
e imagino não deve ser agradável ser privado assim do sono
e embora ainda não saiba do que te preservo enquanto leio bulas no google
peço paciência, amigo
cheguei a tempo, estou perto 
de corpo e memória

é só o necessário

4 de julho de 2016

uma vaga cativa

Há aqui um senhor que sempre guarda sua vaga em frente ao prédio.
Apesar de não ter carro, em mim se criava uma aversão a esse hábito: o senhor se levantava cedo, fazia o que se havia de fazer com um carro em São Paulo e voltava a tempo de nenhum outro ocupar sua vaga. Ao meu olhar justo e puro, um egoísta! Esse incômodo tão nobre  acabou por fazer parte da minha rotina, e de vez em quando me percebia tendo prazer ao criar pequenos jogos para mim mesma - daquele tipo de jogo em que você deve chegar ao microondas antes que ele anuncie o terceiro sinal, sim - sobre a presença ou ausência daquele Uno cinza enferrujado em sua vaga cativa, enquanto maldizia (um pouquinho só) o senhor e sua rotina.

Semana passada estive no ponto de ônibus com ele, às 6 da manhã de um sábado.
Perguntei o que faria, ele disse que nada. Só gostava de andar pela manhã. 
Eu disse que era corajoso acordar tão cedo por vontade própria. E lembro de ter pensado naquele momento, durante um bocejo para ser mais precisa, que se eu não tivesse tantas obrigações talvez eu acordasse cedo também, que era a obrigação de acordar cedo a coisa ruim, os velhos que tem sorte.
Ele completou dizendo que passou a acordar cedo depois de enfartar pela primeira vez, e que até andaria até a Paulista, mas seu coração não aguentaria terrenos íngremes, disse o médico. 
Pegamos o mesmo ônibus até a Paulista. Minha desculpa para não andar era minha grande sacola e o medo de atrasar.
Nos despedimos sem muito em comum e seguimos para nossas rotinas.

Sábado passado o encontrei no elevador.
Desceu comigo mas se despediu no portão, em frente ao Uno cinza.
Andei alguns metros, olhei para trás.
Ele parecia esperar que nossa distância aumentasse para depois seguir o mesmo caminho. Presumi seu desconforto. Velhos costumam se sentir fardos para jovens, ou ver nos jovens um fardo, ainda não descobri.
Perguntei se iria para o ponto. Se queria companhia. Ele aceitou.
Andamos juntos. Ele disse que não andaria tão rápido quanto uma jovem, então eu desacelerei (até perceber que ele tentava andar mais rápido para acompanhar o que presumia ser a minha velocidade real).
Dei graças a deus pelo semestre estar acabando.
Ele concordou, disse que assim se afastava mais rápido do evento e se aproximava mais rápido do que quer que houvesse no futuro. Tive que perguntar.

Sua filha morrera em maio. E em maio eu ainda o maldizia pelo seu Uno.
Um aneurisma dentro de um ônibus bastou.
Ele só pensava nela naquela manhã. Tudo lembrava ela.

Sua voz se agravou, estávamos numa subida.
Eu ando bem até, mas esses terrenos íngremes...
A safena não aguenta
O médico disse...
Mas às vezes eu penso, de que adianta tudo isso? 
Pra que se cuidar tanto? 

Um grande vazio operava entre nós, enquanto o sol ainda surgia.
Minhas palavras ainda não dão conta dessa distância. Digo 'força' sem saber qual a força necessária para aquele senhor. Sou jovem e de fato ando depressa demais.  
Tínhamos ali menos em comum do que na primeira conversa, mas havia qualquer coisa de voz e ouvidos agora. Ele disse que pegaria o próximo ônibus, e me despedi com um toque em seu ombro e um olhar que não dizia nada, provavelmente.

Hoje passei pelo Uno e me vi do avesso por um momento.



17 de junho de 2016

pensamento sobre as formigas

quanto há num copo d'água com açúcar?

uma solução doce para as dores que salgam
tal é o soro inventado pelas mães
um copo que serve de lente para observar alguém que chora
este ser que chora e não sou eu
curioso
um toque sempre te reduz à minha superfície
o copo dispensa o toque e aumenta a pessoa
(não há copo d'água com açúcar que se faça em primeira pessoa, sem interlocutor)


o que gira num copo d'água com açúcar?

a colher que vira sino
a órbita das estrelas que se afogam
as estrelas de açúcar que decantam no chão
(me veio agora essa lembrança, de vê-las no céu
com as costas molhadas de grama da noite
desconfortável e poética, a beleza deve ser isso)


o que sobra num copo d'água com açúcar?

as formigas, e só.

28 de janeiro de 2016

um rascunho antigo


canso de ser travesseiro de olheiras, papel higiênico de lágrimas
de ser corpo pra braços satisfeitos
de envolver com braços insatisfeitos corpos inertes
canso de contar dinheiro e tempo
de não conversar com ninguém em dois terços do meu dia
canso de pedir desculpas por pedir desculpas demais


finjamos por um momento que eu não goste de te ouvir, que os meus conselhos são desprezíveis, que a minha compreensão de olhos concentrados é para disfarçar o meu sono e a minha falta de sociabilidade.


sigamos assim, ao que segue:
bom dia, vou dormir.

18 de dezembro de 2015

aos presentes

tamires sempre me diz coisas inteligentes. ela atravessa grades e crê no amor que não tem fronteiras nos artigos possessivos
um dia ela me disse que "o tempo é o verdadeiro presente, o mais valioso"

me disse que presentear tempo às coisas e às pessoas é estar. simples.
simples como um daqueles pensamentos que saem pingo a pingo de uma fenda, azeitando a pedra não acarinhada há muito, formando lábios com a lama que se acumula nas laterais. e num dia como esse, a fissura com lábios e língua se abre em boca imensa que não cala, inundando de rejeitos a sua rotina antes tão limpa.

um lamaçal de pequenos pensamentos tóxicos
rejeitados
que aumenta as distâncias - ou faz percebê-las, tanto faz
aceno a vocês da margem oposta, e penso que talvez pensem o mesmo


do pensamento:
que estamos perdendo tempo fazendo projetos de barcos que nos levem à outra margem
perdendo tempo fazendo cronogramas para não colher a madeira costurar a vela e talhar os remos ao mesmo tempo
perdendo o tempo fazendo tudo ao mesmo tempo
perdendo tempo tentando descobrir como vencê-lo, como ultrapassá-lo funcionalmente, comendo linhaça e misturando chia ao suco verde
perdendo o tempo calculando nossas horas extras
e comparando o valor de nossas horas (R$13, 96) empregadas em perda de tempo 
perdendo o tempo das rugas, dos tremores, das primeiras palavras, das últimas
perdendo o tempo na tentativa de esquecer que os cinco anos de um bebê não te fazem mais velho, mas fazem do bebê não mais um bebê

perdendo o tempo tentando encaixá-lo numa agenda da google

perdendo tempo pensando que estamos perdendo tempo
e querendo fazer algo com o tempo, escrever sobre isso

perdendo tempo até a lama secar e continuarmos pensando se vale a pena atravessar já que você nem acenou de volta



2 de setembro de 2014

Kelvin

meu amigo,

hoje me dei conta de que passaram dez anos de nós. 
de nós juntos. de nós-riso, de nós-choro. de nós-trio sempre a ser completado.

meu irmão me deu de presente antecipado de aniversário esse pensamento, enquanto demonstrava tudo num lenço:
"imagine a sua vida como um cinto ou um lenço, ou um cordão. a dos outros também. 
vidas tesas, frouxas, flexíveis. vidas que seguem seu próprio caminho respeitando apenas a própria textura, a própria tessitura. algumas dessas vidas ondulam, outras arrebentam, umas outras permanecem com a mesma aparência por toda a sua existência, até amarelarem nas bordas. 
mas às vezes, o seu lenço enrosca em outro.
pode ser apenas um desvio, mas bastou esse encontro para alterar sua vida por completo. (veja o que acontece quando dois lenços esticados tentam se cruzar. afeto. afetação.)
nos relacionamentos duradouros, isso fica mais grave. seu lenço se envolve tão profundamente com o outro que fica difícil distinguir uma trança de um nó de marinheiro ou de uma espiral de dna.
a separação das cordas ou lenços, nesses casos, é mais dolorosa. 
mas note: uma corda que por anos se condiciona a um formato, quando se libera, permanece com a sua ondulação. assim é que os envolvidos em relacionamentos longos ficam depois de uma separação. ondulados. perpetuados nessa sensação de pertencimento.
para essas pessoas, a presença do outro é constante. necessária, mas não obrigatória.
para essas cordas, a lembrança vale mais que a dependência do convívio."

vi nossa amizade nisso 
no nosso modo particular de ser amigo. de deixar livre.

te amo.
e te quero ondulando a minha vida por mais quantos anos você quiser.

27 de abril de 2014

com a necessidade de um título

Sinto-me em necessária bebedeira
Sujeita, pois não, a essa edição que o delete nos presenteia
De apagar o que dizemos
Mas no Word, porém
Que não publica nada a cada enter que damos.
E que nos faz introduzir qualquer letra que nos esquecemos
Ou qualquer SC que escrevemos sem pensar.
E agora já estou pensando
Em todos os erros
Que cometemos na vida sem pensar em poesia
Que a poesia se edita.
Se consome de rimas.
(se consuma de rimas)
e de parentêses
A poesia também vem de um teclado
E porque não?
Por que é separado na pergunta.
Ai, ser publicado.
O ser publicado.

É difícil, é difícil.
e de repente me vejo corrigindo tudo o que o texto trouxe.

1 de setembro de 2013

Av. Brigadeiro Luis Antônio, 1343

Num canto, um saco de lixo preto que às vezes respira.

De plástico negro, moldado, impermeável, sabe-se lá que lixo orgânico o preenche. Reside nas madrugadas da mesma calçada há tempos. Habita o horário que segue a passagem do lixeiro.
E sempre que passo, a mesma sensação. E se passar pela cabeça de alguém, um dia, recolher esse saco? E se o lixeiro atrasar? Se ocorrer a alguém botá-lo num desses grandes caminhões, a mercê de um destino comum a tudo que descartamos? Se alguém tentasse abri-lo? O que queimaria se um cigarro fosse esquecido aceso ali por um transeunte distraído?

Um ruído se ouviria, penso eu. 
Um gemido tão bêbado que não passaria de ruído
Nenhuma reclamação surgiria de um saco de lixo que vive para não atrapalhar a passagem.

E no entanto eu vi ali algo se mexer.


no plano das nuvens (ou do topo do banco Safra)

(Uma flauta transversal ao fundo)
Hoje, à espera de um ônibus, eu pensei em fazer um texto, um curta-metragem, uma cena, algum tipo de criação a respeito dos sonhos das pessoas. Em particular das pessoas que passam por este ponto da Paulista. Dessa gente que diz "antes na Paulista que em Diadema, né!", enquanto ri para a outra que nesse momento se pega pensando que deveria estar vestindo algo melhor. Ou daquelas que param no meio do caminho, merecendo o soslaio indignado de alguém que certamente receberia a culpa e com ela mais parcelas do seguro do carro, acaso estivesse em um, e acaso tivesse batido na traseira deste outro distraído e irresponsável. Este, retomo agora, que parou no meio do caminho e olhou pra trás, como se esperasse por alguma coisa. A acontecer ou já acontecida, esperando talvez que algo fosse remediável, ainda que só o que se visse fosse um pedaço do tênis entrando no metrô, e não a imagem esperada, a imagem correspondente ao grito que se ouviu (ou que se pensou ouvir) de uma pessoa à sua espera.

A rua se trata de pessoas que olham. Não que sonham.
E no que elas olhavam é que eu percebi. Não há sonhos.
Sonhos são criações imediatas. De um imediatismo relativo ao olhar.
O sonho se dá a medida que se olha.
Os sonhos são, necessariamente, as pessoas que passam por nós. São as pessoas que nós gostaríamos de ser e que elas são. São as vidas que gostaríamos de ter e que elas têm. São as coisas pelas quais gostaríamos de passar e que elas passaram. Mas também são os grandes prédios que gostaríamos de conhecer por dentro. São mesmo os coqueiros dos canteiros centrais da avenida que nos remetem à praia. São os quinze segundos de uma flauta audível e do desejo de estudar música. São os agradecimentos do músico aos seus cinquenta centavos enquanto canta Disfarça e Chora sorrindo.
E por que diabos se fala de sonho tanto para o que ocorre no inconsciente durante o sono quanto para o que nos motiva a continuar - não acredito que vou usar esse termo - lutando? O sonho do dormir é aquele que se esquece, é aquele cuja procedência não importa, cujo resultado não interessa, cujas pessoas envolvidas às vezes é melhor nem lembrar. Em que se assemelha este ao sonho de comprar um carro vermelho, de financiar uma casa - um sobrado, de morar na Vila Madalena ou de casar e constituir uma família? Tudo esperado, agendado, parcelado igualmente em 36 vezes com uma entrada que eu ainda não tenho completa, com pessoas das quais eu já sei o sobrenome e o endereço.
O interesse do sonho está no instante em que não se acorda. Quando já acordado, esse interesse está no instante em que o sonho não vale nada. A beleza é exatamente a sua inutilidade, e é por isso que não se pensa neles. Sonhar com um cardigã azul na Hering que a mãe não quer dar por ser uma roupa de meia-estação e esse tipo de roupa não dura muito pode pegar mal, assim como sonhar em ter um dia uma risada sonora de alguma dessas velhas que riem de coisas simples porque "se eu só pensar no preço do feijão, benzadeus, onde a gente vai parar!" não parece digno de ser sonho, ou parar no meio da rua enquanto se pergunta "como raios ele faz essa coisa azul brilhante voar tão alto, chegando ao topo desses prédios que eu nunca vou entrar e descer macio, pousando na mesma mão que a lançou, sem esforço?" não parece um motivo bom pra parar no meio da rua e ser tachado de criança.

O olhar inútil, o sonho gratuito.
E o meu ônibus chegou.

19 de abril de 2013

dos relógios que se fundiam como queijos cremosos

Caí no acordar de um sono leve, sem sobressaltos. Sobre mim um cobertor parayba colocado durante o sono, sabe-se lá por quem. Ao redor, um cheiro de molho e de alguma memória que eu deveria ter. E essa sempre mesma queixa de algum sonho esquecido, de mais um abrir-se de olhos que apaga a um tempo o universo de um beijo, de um desmoronamento, de um subir eterno de escadas, de um parente falecido ou do mais lúdico monstro marinho com asas, oras.
E no torpor de um molho e de um sono incompleto, lembrei de um trecho de um livro da infância. A história sem fim. Um clichê sem esforço para quem há muito não se lembra de sonho algum, além daqueles do dia-a-dia que só nos fazem trabalhar mais para atingí-los. Gosto mesmo dos sonhos desinteressados, que não se dão ao trabalho nem ao menos de serem lembrados. Compartilho esse trecho, achado a duras penas pra lembrar de vez em quando que "todo o reino de Fantasia assenta-se sobre alicerces de sonhos esquecidos".

"Atrás da cabana havia uma grande torre de madeira e, por baixo, um poço que conduzia verticalmente às profundezas da terra. Dirigiram-se para lá, atravessando a neve. Bastian viu então imagens sobre a neve, como se fossem jóias preciosas incrustadas em seda branca.
Eram placas muito finas de uma espécie de mica transparente e colorida,de todas as formas e tamanhos, quadradas e redondas, fragmentadas ou inteiras, algumas do tamanho de vitrais, outras pequenas como a miniatura da tampa de uma caixinha. Estavam dispostas em filas na neve, ordenadas de acordo com o tamanho e a forma, e as filas eram tão compridas que se estendiam até o horizonte da grande planície branca.
Essas imagens eram enigmáticas. Havia figuras disfarçadas que pareciam flutuar num grande ninho de pássaros, burros com togas de juizes, relógios que se fundiam como queijos cremosos, ou ainda marionetes em praças iluminadas onde não havia ninguém. Havia rostos e cabeças constituídos por figuras de animais e outros que formavam paisagens. Mas havia também imagens normais, homens que ceifavam um campo de trigo e mulheres sentadas numa varanda. Havia aldeias alpestres e paisagens marinhas, cenas de guerra e espetáculos de circo, ruas e quartos, e novamente rostos, velhos e novos, inteligentes e idiotas, de loucos e de reis, tristes e alegres. Havia imagens aterradoras, de execuções e danças macabras, e imagens alegres de jovens damas, cavalgando um cavalo marinho, ou de um nariz que passeava sozinho e era cumprimentado por todos os transeuntes.
Quanto mais passeavam ao longo das imagens, menos Bastian compreendia o seu significado. Só percebia uma coisa: havia nelas tudo o que existia, se bem que por vezes numa estranha combinação. Depois de ter andado durante muitas horas ao lado de Yor e ao longo das filas de imagens, o crepúsculo caiu sobre a extensa planície nevada. Voltaram para a cabana. Depois de ter fechado a porta, Yor perguntou em voz baixa:
— Você reconheceu alguma?
— Não, replicou Bastian.
O mineiro balançou pensativamente a cabeça.
— Por quê?, quis saber Bastian. Que imagens são aquelas?
— São os sonhos esquecidos do mundo dos homens, explicou Yor. Depois de ter sido sonhado, um sonho não pode desaparecer. Mas quando o homem que o sonhou o esquece, para onde vai? Vem para cá, para junto de nós, em Fantasia, e fica enterrado nas profundezas da terra. É ali que estão os sonhos esquecidos, em camadas muito finas dispostas umas sobre as outras.
Quanto mais fundo se cava, mais espessas são essas camadas. Todo o reino de Fantasia assenta-se sobre alicerces de sonhos esquecidos."

24 de fevereiro de 2013

Maria José, 123

O lado de fora da casa de um velho tem mais cores.
Pela ausência da catarata, talvez. Pelos olhos de quem ainda não os têm opacos, daquela cor acinzentada que só olhos velhos têm.

De fora da casa de um velho, há gente colorida, há casas antigas pintadas pela prefeitura pra valorizar o bairro tradicional, há crianças jogando uma bola amarela, há um cheiro de pão recém saído do forno, há um gosto de cerveja choca no bar da frente, há o batuque do terreiro lá de trás, há uma calçada sem vagas para mais carros - estes sim, pretos e pratas, apenas -, há mulheres de cabelos feitos - não sem um ou outro fio espigado pra cima, esse clima anda terrível - saindo dos muitos salões ao redor, há alguma briga acontecendo num apartamento por ali, há um velho que, sorrindo, espia a rua duma janela.

De dentro da casa de um velho, há poucos vizinhos que o viram sem cabelos brancos vivos, há o barulho de relógio de corda, um cheiro de velhice na cristaleira, há espelhos cobertos, há um ou outro cumprimento de cabeça com os conhecidos que passam, há um sorriso constante nos lábios, não há tanto cheiro, não há tanta cor, não há tanto sentido nas coisas e nas pressas de quem passa, não há espaço para jogarem bola com todos esses carros - a prefeitura deveria fazer alguma coisa, há sempre lixo remexido na frente também -, há uma porção de gente temporária, há o pãozinho que a vizinha trouxe pensando na espinhela caída, há um suspiro longo que dói de vez em quando e há aquela menina que, curiosa,  sempre anda no outro lado da rua olhando em sua direção.

Um dia ela descobre que não há pernas que aguentem todas essas cores do lado de fora.

16 de fevereiro de 2013

num mês

isso de ser livre
e de ter que pagar o aluguel
de transar em casa
e viver de desencontros
isso de ansiar
de esperar mesmo assim
isso de não se importar
e de fingir que não se importa
isso de apreciar a vista
e de sentir que é vasta demais

vai desgastando
vai perdendo a tinta
vai me arrastando pro fim da noite

é a cota do dia.

meu bem, meu bem

eu  paro no eu
que desgraça parar aí sempre
neste pronome mais recorrente que o seu
mas que vem sempre acompanhado do com
com você, com outro qualquer
foi nisso que eu me peguei diante da janela
fumando meus cigarros
(que eu comprei pela primeira vez, junto com um isqueiro preto)
e tragando um pronome que não existe na norma culta
tragando você
sem a pressão baixa que o cigarro sempre traz
só com
só com o aperto no peito que a fumaça causa
e os pronomes que a véspera faz pensar
no eu, no eu,
jesus, eu sou egoísta
mas de ego em ego eu vou me curando de ti
ou repudiando o ti porque não sou gaúcha
e piorando a minha bronquite.

9 de fevereiro de 2013

uma radial leste de carnaval

num fechar de olhos a quebra da onda, o aspirar do vento, a rebentação caprichosa, a calmaria da água reversa
os pés afundando
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

num abrir de olhos a porta fechada, o barulho de pneus confeitando a água de chuva no asfalto, quilômetros inteiros sendo completados à altura dos olhos
os pés doendo
o calor desses de quando não se precisa de ninguém

16 de janeiro de 2013

miojo de madrugada

ando enxarcando as meias, limpando algumas mesas
ando me acostumando aos pêlos brancos e ao sono
de vez em quando me doem tanto as pernas que só me valem as 50 gotas diárias
50 gotas de qualquer coisa já vale, dizem
os gatos dormem sempre voltados para o oeste, por aqui
nada muito nobre aqui na baixo augusta
as putas já me cumprimentam
já aceito cervejas de graça
e o porteiro acorda por minha causa
além dele, o vizinho talvez (a porta faz barulho)
na geladeira, coalhada e farofa
divido a cama com dois gatos e um alguém que chega
e recomeço uma coleção de garrafas a cada retorno
no mais, a sua falta de tato
não anda compensando o tato que falta

mas vamos marcar, sim.