22.9.09

Cinzento Entendimento


Um dia, há algum tempo, andava pela rua.
Andava como todos andam, acostumada a qualquer nova informação.
Andava esta vida sem as surpresas de uma ficção, sem as expectativas de um clímax ou de uma fuga da rotina.

Falta imaginação aos passantes.
Precisamos nos desacostumar ao que vemos.
Tudo nos surpreenderia então.

A mim, isso ainda não transitava pela cabeça.
Então não pensei muito quando liguei o som de um aparelho que faria minha vida ser mais dançante.
Trilhas sonoras me fazem sentir num filme, onde não importam as paisagens cinzentas, os dilemas trabalhistas, os conflitos amorosos. Pois neste momento minha vida não passa de uma hora e quarenta e cinco minutos, e por ser condensada de tal forma, tudo toma uma intensidade diferente, e gera um interesse maior. E faço associações entre minhas músicas - velhas para todos e atemporais para mim - com aqueles cujos rostos cansados e cheiros acentuados transpassam aquela fronteira imaginária que cada um cria em torno de si numa calçada. Antes cantadas do sofrimento de certa época, agora serviam de moldura pesarosa para aqueles que talvez não reconhecessem em si o sofrimento de uma vida que anda sem surpresas por ruas cinzentas, enquanto passam despercebidas por pessoas que não as querem conhecer, enquanto se vêem sem quem as quis, enquanto riem a piada. Enquanto choram a vida.

Absorta nas divagações de quem descobre em si a verdade dos outros, um som me chama a atenção.
Meu olhar se volta para um homem, que passa lentamente por mim sobre uma bicicleta.
Ele olha para mim sorrindo.
Não tirei os fones a tempo de ouvir o que me dizia.
Mas senti repulsa.
Da placidez do meu semblante fez-se o nojo e a vontade de não mais compreender as pessoas.

Pela instintiva associação que fiz entre o sorriso de um homem de aparência humilde a uma tentativa de sedução vulgar, vi que não tinha vocação para entender as pessoas.
Nunca vou saber o que ele disse.
Mas se eu não posso culpá-lo por me deixar desconfortável, culpo a mim mesmo por me sentir incomodada com um sorriso.

Se antes abriguei as pessoas na minha compreensão, agora peço-lhes que me compreendam.
Naquele lapso cinematográfico, enquanto mergulhava na ficção de meus pensamentos, não soube lidar com a supresa que tanto me instigava.
A surpresa me fez retornar à realidade:

Acostumei-me ao cinza daqui. E este cinza nubla a infinidade de cores que eu sei que existem aqui. Preciso me colorir.

29.5.09

Sobre Respostas Mudas, e Imutáveis

Silêncio voluntário.

Eu, que na impulsividade de falar,
Me calo.
Eu, que não me enxergo na quietude,
Não tenho vontade de falar.
Eu, que debato com ardor,
Me engasgo num nó lacrimoso.
Porque minha voz gera atrito,
sai arranhando-me a garganta.
Silêncio.

Fiz um pacto de silêncio comigo mesma.
Involuntário, sem querer.
Assim como as palavras antes ditas sem querer
hoje saem naturalmente, obrigatoriamente.

Não me sinto bem aqui.
Tenho ânsia de ir.
Pra qualquer lugar, se estiver indo, eu não paro.
Contraio meus músculos em espasmos longos, que me tiram o ar
E o ar se transforma em água, e a água
em tristeza vaporosa.

Já não rebato o dito.
O diálogo não funciona aqui.
O monólogo sem platéia não atinge ninguém além de mim.
Choro, por não ser ouvida.
Choro, por não falar mais.


Quando criança sinto que fui feliz
hoje me sinto uma encomenda
que chega todo dia
e é rejeitada se apresenta defeitos.

Me canso de ouvir
e de me fingir de surda.
"Abaixe esse som!"
Música para calar, para ensurdecer.
O som não é meu.

Trato mal
agrido com o olhar
de quem sofre espasmos
lacrimosos
de quem se aliena de tudo, menos disso
disso que eu não quero viver
mas que vou sentir falta um dia
e por isso sou tratada mal
por quem pergunta por obrigação
quem me julga pra não ser julgado
que ordena
e que não fornece nada além de críticas e dinheiro e caronas.
e deve amar
só não mostra mais
não mostro mais
espasmos que enrijecem a carne
de quem só tem a carne para compartilhar
a alma se esconde
do lado descoberto da casa


me mandam ir dormir
e por isso eu vou
pra não dar tempo a mais ordens
pra não dar tempo a respostas que eu não quero dar
pra não voltar a ouvir.

8.5.09

O Fluxo Mental da Espera

Será que demora?

Frio hoje; não existe mais educação hoje em dia; onde será que escondem o pudor; sem preconceitos, me disseram; acho que só estaria livre de preconceitos se conhecesse todas as pessoas do mundo; todas as pessoas do mundo me assustam; ainda mais aquelas que estudaram na USP; não sei fazer indicações pra quem sabe mais que eu; gosto de achar que sei mais que os outros; pareço que sei mais quando os outros parecem que sabem menos;

;

Acho que é ele...
Será que é?
Como demora!


Ai esse cheiro de pipoca; murcha, feita há 5 horas...mais ainda cheira bem; não me deixar levar pelas aparências...; mas a capa daquele livro era tão atraente; será que minha capa atrairia mais do que meu conteúdo; gosto das escuras, que contrastam com o papel amarelado; gosto das duras, com ranhuras minúsculas, inertes; como uma impressão digital; impressão; a primeira é a que fica; que impressão é essa, que define a identidade sem que para isso sejam necessários dedos molhados em almofadas tinteiras; ela disse 'um ponto de concentração nos desfaz dos preconceitos';

;

Agora é, com certeza!
Que certeza, o quê?! Tão lento que chega a dar ódio.
Queria ter algo pra me distrair.
Umas palavras cruzadas talvez...
Seria bom.


Meus pés doem; minhas panturrilhas também; e todo o corpo se une num boicote generalizado; ponto de equilíbrio; pés afastados, joelhos levemente inclinados no eixo do quadril, em harmonia com as costas; e a cabeça?; pende solta; tento me buscar nos outros; não estou alí; de fato, sou preconceituosa; queria não ser tão criteriosa; dizem que o critério define a qualidade; critérios demais me fazem ver com uma viseira; como se eu colocasse uma forminha de biscoito em formato de flor em frente aos olhos, e só o que visse fossem flores; uma floricultura não funcionaria caso não existissem compradores; a plantação de flores não cresceria não fosse a água e o sol; quero ver os compradores também; e o sol; e a água; não quero olhos moldados numa fôrma;

;

Olha ele lá.
Não enxergo bem.
Será ele mesmo?
Não, mais uma vez.


Um casal bonito; os casais são bonitos; eles vivem por eles; não querem mais do que um ao outro; os verdadeiros casais; não há preconceitos; tudo se apazigua no olhar do casal; mesmo sendo um olhar de prenúncio de algo feito sob lençois; dá pra sentir o amor; consigo me identificar; mas tenho inveja; toda a linha artística do tempo é contraditória; um movimento em oposição ao outro; nunca consigo pensar plenamente no amor; plenamente na raiva; plenamente na tristeza; penso no amor e me vem a inveja dos que se amam sem distância; penso na raiva mas logo não vejo fundamento nela; penso na tristeza e penso tanto que causo lágrimas fora do contexto, me fazendo vítima; ó vítima que sou!; tão hipócrita escondendo esses pensamentos pra mim mesma; tão vítima quanto um pscicopata; tão psicopata quanto uma borboleta; elas sim, as borboletas; elas me assustam mais que tudo;

;

;

;

Lá em cima a lua brilha forte.

Acho que o seu combustível é o frio.
Tem uma aura gorda hoje. E avermelhada.
E mais pra baixo, lá na frente, o que é?
É o ônibus.
Chegou.


Sobre o que pensávamos mesmo?

17.4.09

Ervilha Confessional

Ontem, 01:33.

Não consigo dormir.

Tenho, pela frente, 3 horas e 57 minutos em que qualquer sã pessoa se obrigaria a dormir.
Então por que escrevo? Talvez na esperança de que essa insônia intelectual tenha um efeito "sonífero"?!
O que me incomoda é o caroço de ervilha debaixo dos treze colchões, - poderiam ser sete, nove, trinta e três, contando que eu não meta meu nariz no teto, fica a cargo do leitor a quantidade exata - o único que não me amacia o sono, mesmo sob um edredon fofo como uma nuvem quente, que me mantém confortável, ao som dos pingos de água que caem um a um na telha lá fora, numa noite fria ou o quão fria é possível ser no outono de um país tropical.


Claro, essa ervilha seria só mais uma se jogada no caldeirão de sopa de ervilha que anda borbulhando na minha vida. Mas dêem-na exclusividade agora, pois só ela me atrapalha o sono no momento.

Há pouco, divagando sobre ervilhas e seus efeitos anti-lexotânicos, percebi que parara de chorar. Creio que por causa da comicidade da comparação de um problema com um vegetal, talvez.


Tento, em vão, me lembrar de como eu era antes. Não fisicamente, pois sempre fui baixa e gorda, mas além disso, o que mudou? E para quem dirijo essa pergunta? E quem me responderia, se nem a inquisidora sabe a resposta? Não sou a única, e isso e consola. Quantos já não se pegaram na dúvida "Ok, consegui o que queria. Mas por que eu desejava tanto isso? Que tipo de excitação eu sentia na época em que isso era importante pra mim?"?
Queremos, por vezes, voltar ao tempo para sentir a mesma alegria ou vontade que outrora parecia tão forte, e agora... Some da nossa memória, e passa a pertencer à de outra pessoa, aquela que conhecíamos tão bem, que nos originou, embora não a reconheçamos.

Nostalgia. Saudades do que era comum, nos fez feliz e sumiu.
Triste sina essa do homem. Compreender a alegria posteriormente. Alegria póstuma. Hoje talvez, seja feliz. Mas o presente passa tão rápido e, de repente, zapt! Fui feliz.

Escrevo, meio tortamente, da minha vida social. Antes me cercavam amigos por todos os lados. Pensei ser agradável. Antes riam comigo, me diziam indispensável nas saídas. Pensei ser divertida. A cada novo conhecido, o mais novo amigo se tornava. Pensei ser carismática. Não há de se negar, tenho vaidades. Não sou menos digna do que aqueles que se inflam com elogios.

A vaidade não me dominou, mas definitivamente me iludiu. Não via o mundo aos meus pés, mas ao meu lado. E esse mundo exibia-se em sorrisos quando trocávamos olhares. Bem se sabe que sorrisos de cortesia valem menos que a indiferença dos desconhecidos. Mas creio que exigi demais dos que diziam gostar de mim. Exigi que se lembrassem de mim. Inconscientemente, previ que me esqueceriam. E condenei-os, só porque seguiam meus passos.

Sempre fiz apostas sobre quem permaneceria na minha vida, e quem de nada me lembraria. Errei em algumas jogadas, sempre para o meu azar, nunca para a sorte. Difícil ver partir quem deveria permanecer. Mais ainda é partir de onde deveria ficar.

Hoje, - sem querer ser um daqueles vestibulandos que começam sua redação especialistas em algum período da "sociedade" - o amor está em moda.

Ama-se tudo, porque amar é bonito. Mais bonito ainda é dizer que se ama.
Ter tanta preocupação em anunciar um amor ao mundo, em exaltá-lo de todas as maneiras, em empregá-lo em todos os comentários fotográficos de Orkut, que se esquece, às vezes que o alvo é a pessoa amada, e não a platéia que te escuta. Escuta, ou finge que escuta, enquanto posta um recado apaixonantemente vazio para alguém.

Já fui assim, portanto te compreendo bem.

Gosto de dar voltas, admirando a paisagem antes de ultrapassar a linha de chegada. Admito, preciso treinar a objetividade, para que mais pessoas além de mim se atinjam pelas minhas palavras.


Por vezes, pensava ser solícita demais, sempre disponível. Acordei indisponível, vejam só. E os sorrisos daquele mundo cessaram.
E cessarão sempre, por mais que juramentos sejam feitos.

Restam os chamados de recados vagos de futuros encontros saudosos sem horário nem data definida, que nunca acontecerão.

"Penso não ser preocupação de ninguém", minha ervilha retoma o disurso.
É mais confortante preocupar do que divertir.
Sentir que se preocupam com você.
Minha família se preocupa.
Um grande amigo se preocupa.
Outro grande amigo que tem por hábito me furtar beijos também se preocupa.
Quanto aos outros, há dúvidas.

Talvez já tenham se preocupado, mas o tempo os ocupa de outras formas agora.

Mas não se desesperem, não peçam perdão, não se subestimem, nem pensem que eu os subestimei. Pelo contrário, os superestimei no passado.

Eu os amo, ainda.
Amo por serem parte de mim hoje, por terem me construído.
Só quero um amor atemporal, que não se degrade com o tempo, com a distância, que não se desmanche pela falta de contato diário ou pela presença de lágrimas no lugar de risos.

Desejei sumir. Saberia então, se alguém se preocupa.
Saberia?

Se sumisse, todos se preocupariam, assim como todos ririam se eu contasse uma boa piada. Mas, após a excitação do retorno e o término da dor de barriga causada pela coxinha da festa de regresso, quem mais se importaria? Quem seria aquele que, após a piada, me perguntaria o que diabos eu tentava silenciar com gargalhadas tão altas?

Só o que suplico:

Se preocupem,
Se pósocupem,
Se ocupem de mim às vezes.



E boa noite.

31.1.09

O andar tranquilo

Andava apressadamente.
Um fim de tarde ensolarado, mas de um calor que não agredia.
Acariciava.
Um pé seguia o outro, instintivamente.
O vento bagunçava meu cabelo e, no entanto, eu não me incomodava.
Passei a pensar. Precisava botar meu pensar em dia.
Mas o meu pensar anda vagarosamente, por caminhos tortuosos.

Sua cronologia segue a instabilidade das nuvens, ora coberturas para refrescar, ora telas brancas, prontas para a pintura solar.
"Nuvens são interessantes", pensei.
E lembrei dos momentos em que olho para o céu e, talvez numa ilusão de uma mente doentia, ou num acesso de pureza extrema, digo: "O céu está alto hoje".
Não é piada, juro.
Há nuvens comuns, mundanas.
Há nuvens rasteiras, esquivas.
Há nuvens pequenas, isoladas.
Há nuvens aventureiras, amantes do vento.
E há aquelas nuvens.
Aquelas, infinitas.
Que mesmo cobrindo o sol, iluminam.
Seus contornos, definidos e inatingíveis, parecem esconder mais que o sol.
Escondem talvez o Olimpo, um pote de ouro.
Escondem a riqueza não-palpável do homem.
E estão lá.
Tão altas... e ao mesmo tempo, tão perto.
Hipnotizam.

"O céu está alto hoje."

Hoje elas não estavam lá. Que pena.
Talvez elas só existam para nos privar de uma rotina apressada e sem pausas.
Nem que por alguns singulares momentos apenas.
O céu estava baixo e me impeliu a olhar para os passos que dava.



-Nossa, que andar tranquilo!

Me perdi nessa frase.
Foi como um empurrão dado por um contestador de pensamentos.
Uma advertência do meu lado racional.
Acelerei meu raciocínio. Saí da ausência de obrigações em que tinha me metido.

Andava apressadamente.
Um pé seguia o outro, instintivamente.
O vento me incomodava, indo contra mim.
Pensava no objetivo, chegar à.
Não pensava mais em mim, indo para.
Não pensava mais nas nuvens, sem porquê.

Nota Para a Posteridade


Ando lendo muitas peças teatrais ultimamente.
Leio por curiosidade. É o que me resta desse mundo tão esclarecido.
Não se enganem, não sou culta. Sou mais ignorante do que um trabalhador braçal que largou os estudos para garantir o sustento da família. Ele sabe da vida.
Eu sei das peças. E das suas histórias fictícias sobre pessoas fictícias com seus dramas fictícios.

Precisamos de milhões de pétalas de flores para extrairmos poucos mililitros de sua essência.
Precisamos de milhões de pessoas para extrairmos poucas palavras de sua existência.
A essência, que num abrir de frasco nos inuda com um cheiro equivalente a uma plantação de flores.
A existência, que num virar de página - ou num abrir de cortinas - nos inunda com a realidade equivalente à vida de uma humanidade.

Mas, mesmo verossimilhantes, as peças ainda não contam da minha vida.
Contam da minha essência, sim.
Mas quem afinal conhece a sua própria essência?
Desconhecemos tudo aquilo que nos torna íntimos de quem não gostamos ou simplesmente não conhecemos.
Eu desconheço isso.
Por isso, e talvez por uma birra infantil de me considerar única - exclusivamente falando -, não consigo me identificar com o personagem.
Pode haver aquele outro motivo também. O de conhecer das peças, e não da vida.

Mas querendo ou não, a vida é teatral.
Sendo aspirante à atriz, sou aspirante à vida.
E a teatralidade da vida me impede de ser real.
Muito embora o que é teatral não seja irreal.
Preciso, de uma vez por todas, aprender essa lição.
Pois quando leio uma peça, todos os meus átomos se voltam para um objetivo.
O de parecer real, apesar de não o ser.
Meus olhos não mentem. Eles tremem ante a falsidade daquilo que digo.
"Meus olhos precisam aprender a mentir."

Me ocorreu esse pensamento.
Sem me dar conta de que se os meus olhos precisam desse aprendizado, então meu corpo inteiro, todos os meus sentidos e pensamentos deveriam fazer parte dessa tarefa então.


Caí na realidade do absurdo que dizia.
Não tenho que mentir para ser real.
Basta extrair de mim a verdade,
colocá-la num pequeno frasco,
e quando sentir necessidade,
desenroscar seu ferrolho,
e cheirar a mim mesmo,
me inundar de mim,
e da humanidade,
e ser igual,
essência.

11.12.08

Sucedeu assim:

O conheço.


Sujeito de opinião, nunca deixa de dizer o que deve ser dito. Tem criatividade, não nego. Suas ideias são umas das únicas que me disponho a ouvir aqui. E é engraçado, como é engraçado! Faz rir com a leitura de um texto... escrito por ele. É alto, robusto, cabelos negros, pele morena clara, olhos....não reparei ainda. Devem ser bonitos. Mas namora, de certo. Vive de abraços com uma menina de cabelos lisos e loiros, não deve nem saber que eu existo. E atua bem, o desgraçado. Gostaria de conversar com ele um dia desses.

Simpatizo com ele.

Ele sabe quem eu sou! Me criticou por certos comportamentos agressivos que tive. Percebi então uma pequena falha de sua dicção, com certeza agravada pela crítica recebida. Mas a crítica não foi de todo ruim, pois pude enfim ver seus olhos, escuros e profundos, olhos de questionador.
Tinha certa empatia, de fato. Conversava abrindo os braços, em gestos teatrais e hipnotizantes. Na despedida, por vezes senti uma atração inusitada, que mais tarde seria confirmada por um amigo, dizendo: "Foi recíproco."

Gosto dele.

Me chamou para ajudá-lo como réplica num teste. Eu aceitei de pronto, quem sabe por impulso. Antes do ensaio, nos comunicamos por olhares e toques desinteressados. Esse diálogo não foi pré-combinado pelos envolvidos, ocorreu enquanto éramos embalados pela ladainha de um amigo. Suas mãos são grandes e me envolvem, sem que tenha que encostar em mim para isso. Havia algo ali. Algo que se assemelha ao breu da noite.

Quero beijá-lo.

Esqueceu-se de mencionar do beijo ao fim da cena. Neste ensaio, misturaram-se temor, profissionalismo e uma vontade não reprimível de tornar o personagem real. Vi falta de coragem nele, como se não bastasse a minha. Num impulso, o beijei. Não creio que ele acreditou.
Mas minha vida não admitia novos compromissos no momento. Gozava da liberdade dos solteiros, e isso me era valioso. Não queria nada mais.

Me apaixonei por ele.

A noite me encobriu então. Tateei no escuro a procura de algo que se assemelhasse com a razão, não encontrei. Seus olhos se tornaram penetrantes e seus beijos me impediam dar opiniões equivocadas. Diz que sente o mesmo por mim, embora eu nunca tenha compartilhado desse meu veredicto com ele. Sua personalidade me confunde, com suas mil ramificações, que me desviam de encontrá-lo na origem. E de certa forma, elas me tragam ainda mais para o precipício que fatalmente viria.

O afastei.

Tive medo. Meu coração batia mais rápido, seus abraços se tornaram mais rápidos. Tudo se acelerava, e ao mesmo tempo se distanciava. Ninguém entendeu o que passava comigo. Tive necessidade de mim. Me tornei ele tão rápido que esquecera os motivos que me fizeram o querer. Não há culpado, mas o fiz vítima. Vítima da minha incerteza.

O amo.

O que antes era propriedade dos olhos pode hoje ser traduzido - em parte - para palavras. Mas as palavras proferidas ainda não transmitem calor que o aqueça, ou um carinho que o acalente. Quereria apagar certos momentos do passado que hoje me constrangem. Mas somos feitos do que se passou. Nada de ruim nunca pôde acontecer quando estive segura por ele. Faz duma tarde abafada e entediante de terça-feira um sonho intenso e concreto. Me elogia, ainda que o espelho me xingue. Me ama, sem dúvida. Hoje ainda o conheço, e melhor. Simpatizo com ele, gosto dele, e continuo a querer beijá-lo. Me encontro apaixonada por ele ainda.
E o amo, inevitavelmente.

18.11.08

Luto à Incoerência da Morte



Seria hipocrisia minha me referir a ele como um grande amigo que tive num passado não tão distante. Era antes um colega, com quem na realidade nem tive muito contato, e o pouco que tive, escasso pela falta de afinidades, extinguiu-se inteiramente durante o duro processo de separações colegiais.

No entanto, a morte dele na última semana cruzou com a minha vida de tal forma que se torna difícil dizer que ele foi alguém que simplesmente passou despercebido em minha vida.

Sua morte nos desperta para um sentimento mais elevado que o pesar, para uma saudade maior do que a movida pelo contato cotidiano. Sua perda nos torna incrédulos perante inevitabilidade da tragédia.

Repito, não era sua amiga.
Mas ainda lembro da alegria que parecia não cessar em sua fala desajeitada e nos seus modos bagunceiros.
Uma alegria que chegava até a irritar, às vezes.
Uma alegria que nos torna cegos diante do motivo que o fez partir.

E ainda assim, a pergunta não é: "O que o fez optar pela morte?"
E sim: "O que não o fez optar pela vida?"

Se me permite, nossas relações se estreitaram por essa tragédia.
As tais "afinidades" supervalorizadas do dia-a-dia perdem seu efeito preconceituoso numa situação dessas.
Tornamo-nos mais afins; Unimo-nos, mesmo que separados agora por uma barreira temporariamente intransponível.
Gostaria de ter sido sua amiga agora.
Não para te convencer a não se matar, mas para ajudá-lo a ver que a vida não é tão ruim assim.
Sinto pelos seus pais, amigos e parentes... pessoas que te amam e que fariam de tudo para te ver esbanjar aquela alegria novamente.
Sinto por você, que poderia ter um futuro lindo.

Vá em paz, Deivid.
Sentiremos sua falta.

27.10.08

Macumba Generalizada

Há restos de parafina vermelha na esquina.

Somos irmãos,
Feitos sob os preceitos da igualdade,
Amamos o próximo,
Vivemos em fraternidade.
No lindo mundo pink and blue da Utopia, talvez.
A realidade se contrasta com a cegueira consentida e conformada dos que se julgam cidadãos.
O tipo de contraste que só o preto no branco tem.
Forte, chocante. Escravista.

"As pessoas estão se destruindo."
Disse um amigo logo após um assalto.
Passamos pelo que eu acredito ser o período mais egoísta da humanidade.
A obtenção da ciência parece ter punido a sã consciência.
O que nos rodeia hoje é uma cidadania hipócrita, exaltada sem porquê.
E tudo deve ser dito na Terceira Pessoa do plural, porque esse desagradável Yin Yang contemporâneo já faz parte de nossas rotinas, desequilibradamente padronizado.

Há penas pretas flutuando sobre nossas cabeças.

Olhos deixaram de se contemplar para apenas se cruzarem.
O "eu te amo" é tão dito que perdeu o sentido que provavelmente já teve.
Originalmente.
Originalmente, todos somos livres para dar um passo.
O passo define o caminho.
Não caminhamos mais.
Corremos, e hora ou outra, esbarramos em alguma coisa quente, familiar e intrigante que insistem em chamar de
VIDA.
Tão intrigante que deixamos de lado, como um cubo mágico que, guardado numa gaveta, espera anos para ser solucionado, ou até mesmo, nos casos mais graves, aguarda aquele que o tire do marasmo das seis faces de cores iguais.

E a vida se resume a um dia após o outro.
E o outro se resume a uma pessoa atrás da outra.
Passam, se auto-consomem.
Fazem todo sentido. Óbvio, no sentido denotativo.

Há sangue debaixo de nossos pés.

Há milênios conotativos
Ouvi dizer que as pessoas só queriam a paz.
Palavra clichê, digna de ser escrita nos trabalhos escolares cujo tema era "O mundo pra você teria...?"
Via todos de branco no início de um novo ano.
Mas, com o passar do tempo passei a notar as ondas puladas.
E os desejos próprios, individuais.
As velas apagadas, o primeiro corte no bolo, o empréstimo, o carnê, a demissão, o desenvolvimento, a auto-promoção, auto-estima, auto-enriquecimento, auto-satisfação.


Auto: próprio, por si próprio, independente.
Absolutamente, vivemos numa repartição.

Cabines individuais, em que a vida do "próximo" só é averiguada por meio da curiosidade.
Interesse pelo coletivo. Sentido conotativo.


Há macumba diante dos nossos olhos.

22.8.08

Algo sobre sentidos.

Reclamamos.

Do que ainda não alcançamos,
Do que nos foi tirado,
Do que nos é dado,
Do que sentem ou não sentem por nós,
Do que idealizamos,
Do que não concluímos,
Do que os outros não concluem por nós.

A reclamação se torna automática, por vezes até instintiva.
Constantemente banal.

Por vezes desejamos uma nova vida, com novos objetivos, novas pessoas, novos empregos, nova personalidade...
E novos motivos para reclamar, talvez.

Tenho vivido experiências marcantes, e sinto o desejo de compartilhá-las, por mais que o diálogo seja apenas entre eu e este computador.
Ainda assim, essa acirrada discussão desperta em mim opiniões antes desconhecidas ou meramente banalizadas.

Na semana passada, comecei a trabalhar como intérprete de Libras de um aluno surdo, num curso de gastronomia.
Não fosse a complicação dos termos técnicos e a responsabilidade de passar uma mensagem a alguém - podendo ou não comprometer seu aprendizado - a situação não me geraria grandes emoções.
Mas acontece algo a mais nessa experiência, e isso sim me faz repensar muitos conceitos. Ou apenas, pela primeira vez, parar para pensar nesses conceitos.

Imagine-se privado de algo que é seu, por direito.
Imagine agora que isso que lhe foi tirado o diferencia dos demais.
Imagine a vida sem som.
Imagine o mundo sem música.
Ou ainda, uma vida sem luz, sem cores, sem voz, sem cheiros.
Vida sem mobilidade, vida quieta.

E o que escrevo aqui não é movido por dó, nem quero causar compaixão em quem lê.
Pessoa com deficiência é tão pessoa quanto qualquer outra.
E ouso dizer: é até mais pessoa.
E não quero ser mais uma a declamar clichês como "eles são fortes", "eles superam tudo", "eles devem sofrer tanto..."
ELES poderiam ser nós, e vice-versa.

Às vezes vejo amigos imitando uma ou outra deficiência, a fim de me irritar.
Confesso que realmente não gosto desse tipo de comportamento, que expressa infantilidade diante de situações que merecem aplausos, e não risos.
Confesso aqui também que, quando criança, minha mãe me levava à escola para crianças especiais, e que me divertia com elas, tanto quanto o fazia com outros amigos.
Até que alguém, não me lembro quem, nem quando, nem onde, me fez crer que essas crianças eram diferentes e deveriam ser tratadas como tal.
Talvez tenha sido um auto-conselho, a memória me falha.
E tive nojo. A palavra é essa, nojo. Nojo daquelas crianças especiais.
E até hoje padeço por isso. Mai tarde, transferi esse nojo para mim, por esses pensamentos absurdos.

Nesses últimos tempos, também, senti atmosferas de superficialidade em diversos lugares.
Acadêmicos, culturais, estudantis.
Tudo em volta exalava futilidade, odor antes pouco perceptível.

E a junção dessas duas realidades me faz pensar.
E repensar sobre o que é realmente importante.
Algo é importante apenas quando em comparação com outra coisa?
Um sapato x menos pior que um sapato y.
Uma paralisia x é menos pior que uma doença mental y.

X em função de Y.
Vivemos em um mundo de opostos, onde o vetor que guia o olhar tem mais importância do que o que se olha em si.


Reclamamos.
E sempre reclamaremos.
Mas que a repetição não nos domine.
Ao invés de Re Clamar, clamemos por algo mais.
Clamemos pela vida, e agradeçamos por ela.