31 de maio de 2012

Oração à cerâmica azul

Meu tio enfartou hoje.
Andava em alguma daquelas ruas sem ninguém só com árvores e passeios de domingo de sua juventude. Almoçou, dormiu e deve ter ido andar, ele sempre faz isso. Enrijeceu, caiu. Deve ter gritado aquele grito dos que pedem socorro sem querer. Grito de quem não grita há tanto tempo que esqueceu como gritar, grito mandado por Deus que ordena "grite! antes que você não possa mais!". Na infância, lembro de ter ganhado dele três golfinhos de cerâmica azul. Na morte do meu avô, eu, criança, quis ter qualquer coisa em mãos pra chorar por alguma coisa concreta, não pela ideia abstrata e estúpida da morte. Peguei os golfinhos do meu tio, impus a eles a memória de tê-los ganhado do meu avô, afinal, moravam na mesma casa, tinham o mesmo cheiro, tinham o mesmo prazer em me mostrar o pé de morango que brotava de uma privada cheia de terra que instalaram no quintal. Não recorri aos golfinhos na morte da minha avó. A concretude da cerâmica deu lugar à concretude da memória, minha idade já permitia tocar nas bochechas vermelhas e ouvir o arrastar dos chinelos de pano no assoalho sem precisar de bochechas ou de chinelos nas mãos. Já tinha entendido a morte. A morte era ficar sem alguém, mesmo que você já estivesse sem alguém há um tempo. A morte era a impossibilidade de reencontrar alguém, a incapacidade de, em uma visita de Natal, compensar (e adquirir o perdão divino) anos sem visitas. A morte é tudo aquilo que faz pensar no que a gente não fez por alguém. E eu não via meu tio desde que as visitas de domingo aos meus avós cessaram. Mentira, o vi sim. Poucas vezes, às vezes sozinha, quando passava pela rua antiga e o via na calçada. Ele me fazia entrar, colher trevos de quatro folhas e levar umas jabuticabas ou limões. Os trevos talvez ainda estejam lá, uma plantação deles compensando a falta de sorte. A jabuticabeira morreu, deve ter sido regada demais. Restou o limoeiro que, árido como era, aguentava um regador de lágrimas salgadas sem reclamar. Minha mãe me fez chá deles esses dias pra melhorar minha bronquite, mas ela piora quando eu choro, mesmo com chá. E agora essa vontade de comer jabuticaba. Que nem a que dava  nos domingos à noite, quando o quintal estava escuro demais pra achá-las. Nele brilhavam apenas as centenas de  vaga-lumes que eu só encontrei naquela casa. Estrelas das árvores. Hoje eles não existem mais, em nenhum lugar. Também eles partiram pra algum lugar com jabuticabas. A casa agora está vazia, ressoando apenas o relógio de pêndulo que badalava de hora em hora, em meio a muitos outros relógios parados. Um tempo que corre em meio a outros tempos pausados. Meu tio é relojoeiro. 

É, não morreu ainda.
Avisa teu pai.
Os médicos disseram pra não ter esperanças.
Chegou quase morto.
Ficou tempo demais sem resgate. O cérebro foi afetado.
Foi na rua, sozinho.
Almocei com ele e ele foi dormir, deve ter saído depois.
Ele costuma passear nesse horário.
Sempre andava com uma caderneta com o telefone dos irmãos no bolso.
Não pode receber visitas.
Avisa teu pai.

Aviso.

Ficou tempo demais sem visitas, o cérebro foi afetado. Deve ter saído sem esperanças, depois do almoço. Andava na rua com o telefone dos irmãos. Não tinha esperanças no bolso. Avisa teu pai sozinho. Foi na rua, sozinho. Não morreu, ele costuma dormir nesse horário. 

12 de maio de 2012

Telhados

(http://www.youtube.com/watch?v=IUAF3abGY2M&feature=related)

Era um sábado diferente. A luz mudara.
Fazia meses que só conhecia a luz alta do sábado, a que há entre um anoitecer e um acordar tardio. Vira-se obrigada a fazer um exame nessa manhã, e era apenas por essa razão - não pelos raios tímidos de sol, nem pela calmaria que só se encontra aí, quando os trabalhadores dormem e sonham com a programação de fim de semana da tv - que estava ali, tão cedo tão distante tão calada. Avental, toucas para pés, seu interior sendo explorado por câmera, gase, tinta azul e pequenos instrumentos que, por falta de estudo em medicina, se permitia chamar de colheres. "Acompanhe pelo monitor, senhora." Colheres dentro dela, e ela pensando que devia ter comido um pão com manteiga.

Do lado de fora, pensou na casa muito longe e nos ônibus que de sábado fazem regime de gente e aproveitam mais a cama, eles merecem, vai que pegam uma pneumonia ou qualquer dessas doenças pulmonares de outono, eu bem que já vi um tossindo preto, bem que eu vi. Sem pudores, um gordo vento inflou-lhe o vestido, engravidando-a de brisa. Seria menino, não fossem os nove meses que demoraram tão pouco pra acabar. Olhou o céu, branco. Daquela brancura que os grandes conhecedores do Belo dos programas da tarde denominam "tempo feio". Era belo assim - tanta gente que sempre quis ver neve, nem percebem que é ela que cobre o chão do céu de vez em quando -, branco. Quis andar.

Na vizinhança muitos pacientes, a maioria impaciente, sempre à espera de resultados e curas e notícias ruins e diagnósticos de morte iminente para que possam comer chocolate e ficar nus em seus últimos dias com esse álibi que ninguém contestaria. O tipo de paciente que parece nunca ter deixado de ser paciente. E haviam os pacientes dos pacientes, aqueles que esperavam pelo outro e seus resultados, curas, notícias ruins e diagnóstico de morte iminente, já pensando em recusar ser fiador de gente assim, que morrendo logo vai querer empréstimo pra última viagem e crediário das Casas Bahia pra carimbar um sofá novo uma vez só. Deveriam saber que estar morrendo e estar morto é a mesma coisa. Deveriam mesmo.

Quase fugindo do cheiro de silêncio desinfetado, continuou andando a passos incertos, sabendo onde ia parar, ela sabia, decerto, sem dúvida, "quero flores", ela pensava em comprar flores, só umas florezinhas e ir embora, o dia estava frio e ela precisava comprar um remédio, "só umas flores", ela pensava. Acontece que para além das flores havia a morada dos avós, a cama rígida dos antepassados, o albergue das camas de mármore dos que já foram. Quis entrar. A cada passo era como se adentrasse num ar mais espesso, como se o tempo dos mortos fosse macio, oleoso. Uma aglomeração no portão, esperavam um corpo. Rostos sem maquiagem, roupas coloridas, não é luto de filme americano. O povo daqui se move rápido quando alguém para de se mover de repente. É rápido que se vestem, é rápido que entendem o que aconteceu, é rápido que oferecem condolências, é rápido que choram pra que os que choram mais doídos não se entristeçam mais. E rapidinho já estão tomando café que alguma vizinha do morto deixou na mesinha. 

Passando do portão e dos olhares apressados que parecem reconhecer o lugar - já que não são de lá,  não pertencem àquele lugar, nada ali é natural, nada, nada, por favor deus livrai-nos do mal, amém - é o devagar que toma conta. Os vivos de dentro estão de visita, possuem a calma de quem já não tem pretensão de olhar nos olhos vivos, de arrancar palavras ou de cheirar os cabelos a qualquer custo de quem já foi. Os olhos destes são olhos de saudades dos mortos bons (aqueles que permanecem mortos), aqueles outros, desesperados, permanecem úmidos constantemente pelos mortos ruins (assim chamados porque ficam presos às lágrimas dos vivos, sofrem com eles, não os abandonam). São duas saudades distintas, aquela que manda um abraço e se contenta com um cartão postal, e aquela que exige o abraço e a quem um cartão postal nunca seria recebido sem gritos e rasgos. A ela nada agradaria mais do que um anexo preso àquele  com um clips, uma passagem de ida, é só o que pede.

Tentou distinguir em meio às superfícies escorregadias dos azulejos algum conhecido. Há famílias inteiras morando lá, pede-se silêncio e cuidado com as quinas. Passou por velhos que lavavam os túmulos com o zelo de quem troca fraldas. Um senhor detalhava com um pincel a moldura do altar de uma das lápides, queria agradar a Deus. Um artista de cemitério, um pintor vivo da morte. Sua esposa encarou a visitante, como uma alma ou uma joaninha que espera o próximo passo do outro para então tomar uma direção. Envergonhada, seguiu sua procura. Nem mesmo sabia mais o que procurava. Alguns corredores estreitos depois, quando já não sabia se pisava em chãos ou em telhados, encontrou um sobrenome conhecido. Jazia ali a família de sua avó. O vento que se formou nesse reencontro a despenteou, e com seus cabelos também seus pensamentos embaraçaram. O que a trouxera ali, afinal? O vento insistia em desarrumá-la, ele bem sabia que ela deixara de usar roupas largas por vergonha de seu corpo, sabia que ela as usava agora para que ele tivesse espaço para abraçá-la. Abraçada assim, como estava, beijou o passado, chorou diante dele. Diante da lembrança dos olhos claros e pretos que sempre a estremeceram quando diante de uma fotografia antiga. Pediu ajuda. Insistiu que a acompanhassem para que consertassem a vida dos seus. Enfim distraiu-se com um barulho, secou as lágrimas. Sabia que não era de bom tom ficar assim tão próxima de gente morta. Dali só conhecia sua avó, e ela provavelmente não conhecia sua neta dos seus últimos anos de escleorose, ainda que lhe oferecesse a lembrança dos doces italianos açucarados. Ficaram assim, se fitando por um tempo. E desta vez o vento, este do sopro de sua avó, pediu-lhe que dissesse o que tinha vindo dizer. Num suspiro, a menina disse: "afinal qual o melhor cheiro, o da terra por cima ou por baixo?

Encontrara a morte, era ela o que procurava - e das flores esta só tinha o aroma.

7 de maio de 2012

céu de areia

Nos depositamos nos outros até que virem a ampulheta
E é sempre antes do último grão, é peso demasiado afinal.
Convenhamos, areia nenhuma se assenta desse jeito, a não ser na transição.
Nem é muito peso, é só peso cansado
Peso que busca chão, que cansou de ser objeto do tempo
E das aflições e das desistências e dos amores e das desilusões.
Areia que cansou de ser unidade de medida,
Corpo que cansou de ser unidade de controle.
A alma só quer ceder à gravidade, só quer permanecer um pouco, independer-se do tempo.
Mas o refúgio da alma, assim como o da areia, é o próprio estrangulamento da passagem, é esse nó de garganta pelo qual custa passar qualquer coisa, é essa incapacidade de estar em outro lugar que não seja o da mudança, é essa ausência de origem e de destino. O ar é o que acalenta a areia, e ele é frio.

E de chão a teto, o que fica é só o tempo.

1 de abril de 2012

uma última palavra sobre.

de tempos em tempos, te confiro. de luneta em mão, tento enxergar qualquer banco de areia da tua ilha movediça. e da linha arredondada do horizonte vejo escrito: acabou. estou feliz aqui. você está feliz ali. se bem que dizer... bem sabemos que a alegria ou o pesar de qualquer um de nós só se constata na presença. e estamos distantes. melhor assim. meus portos seguros agora são muitos, ou nenhum. o seu, bem posso imaginá-lo, no seu típico mar revolto de incertezas, piscando fraco em meio às tempestades das tuas escolhas. eu estou no interior, na água doce e hostil, mal te vejo. bem queria. só o que se mostram são encontros distantes e fortuitos entre faróis e embarcações inseguras. que não sejam apenas luzes. que te amem. antes eramos duas embarcações, talvez. duas naus naufragando de mãos dadas, encontrando uma na outra um porto. éramos separados por oceanos, por horizontes molhados. na garrafa, um cheiro de rum impregna o pergaminho que diz: "vou indo, vai indo, nos perdemos aqui, nesse desencontro." e no mar mergulho, esperando-t.... esperando-um-te. te cuida, pois já tirei essa tarefa da lista dos meus pensamentos. terei que dar uns pontos nesse coração.

15 de março de 2012

contando roxos

roxos doem conforme a altitude
bater a canela quando se está nas nuvens não dói
a não ser que se escolha olhar o roxo
porque o roxo é a dor que não quer ser esquecida
é dor que dói por se fazer olhar, é nos olhos que ela dói
o roxo é o que te mantém terrena, o que te faz voltar pro chão
por isso que eu ando criando o hábito de me ancorar
porque cair da neblina das coisas que não doem causa hematomas
e a realidade assume-se... roxa.

1 de março de 2012

Meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou pensando
um pouquinho em cada coisa
me entristeço um pouquinho
mas calma
eu me alegrarei
garanto
meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho vou me afastando
e outros também se afastando, me afastando
bem pouquinho
um de cada vez
um pouquinho de cada vez
a minha voz vai ficando embargada
nada de mais, só de pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou esquecendo de como dizer adeus
vou perdendo as faces
e as vozes
de pouquinho em pouquinho as distâncias aumentam
(vide a áfrica e a américa
dois centímetros de atlântico a mais todo ano
no meu mapa são quilômetros)
sem que eu perceba o pouquinho vira muito
porque de pouquinho em pouquinho a gente deixa de estar
de amar
de esperar
deixa de querer lembrar
deixa na gaveta só o pouquinho do que passou
e é pouquinho o cheiro que sai dela quando é aberta
porque mal-conservada, sem naftalina, a cabeça da gente fica um pouquinho esquecida
e de pouquinho em pouquinho a gente se acostuma

é com pouquinho que eu me contento de início
peço pra ficar mais um pouquinho
abraçar mais um pouquinho
o pouquinho deixa de querer contentar
vira pouquinho apenas
e de pouquinho em pouquinho vou querendo ir embora e deixar a louça pra outra

pouquinho, pouquinho
chego a te amar
tamanha a sonoridade bacana do teu nome
mas não vou me iludir
bem sei que é pouquinho o que tem a me oferecer
teríamos um caso de amor regular, sem arrebatamentos
as estrelas do nosso céu pouquinho apaixonado seriam pouquinhas
e só um pouquinho brilhantes
nem filhos poderíamos ter
que diminutivos de pouquinhos se perderiam facilmente por aí
teriam auto-estima baixa, teríamos que pagar um psicólogo
e com pouquinho dinheiro não dá

de pouquinho em pouquinho vou achando engraçado falar pouquinho tantas vezes
lembra porquinho
mas não quero fazer graça
que o pouquinho é o meu estado de incompletude
o pouquinho é o que falta e o que sobra
me pego saturada e insaturada ao mesmo tempo
vivo de pouquinhos
ando um pouquinho abatida por isso
nada demais, só de pouquinho, não se preocupe
mas não ache que é pouco
é pouquinho
que o pouquinho tentando se convencer de que não é nada
se coloca no diminutivo, e assim acaba maior que pouco
se torna quase muito

15 de fevereiro de 2012

da ascensão à queda do colo

de que me adiantam os olhares censores?
lhes digo claramente: sou isso. e não sou.
quero crer que a maioria é assim também, pra não me sentir tão minoria.
a culpa de buscar colo é dos colos, não de quem os busca.
dos colos que foram, dos colos que não permaneceram, dos que aí se mostram desocupados quando não estão.
no fundo é só isso, não se enganem. é busca por colo.

e nessa busca vou sendo eu e vou deixando de ser eu quase simultaneamente
sou eu no momento, e deixo de ser quando ele acaba
então viro sombra pensativa, que cogita sobre seus erros, acertos e exageros
viro arrependimento, aí volto a ser eu
acho que me definirei assim:
te tenho, logo existo;
te perco, logo inexisto;
me arrependo de você e volto a existir.

o erro é voltar a querer o momento
voltar a querer colo, voltar a querer existir.
não é te querer, é querer alguém que me queira
por um momento que seja.
o erro não é perder meus lábios bêbados em seus lábios secos
o erro é acreditá-los molhados
e um dia encontrá-los se abrindo e fechando em palavras ditas a outros,
incitando os olhos censores a se anunciarem
como se meus próprios olhos já não se censurassem a ponto de desejar o chão como morada
é de quedas que são feitos os colos
a queda num colo te faz incólume
ao passo que a queda de um... te faz outra
outra muito menos predisposta a cair

mas atente:
na trajetória do arrependimento
que não estejam presentes as conversas de banheiro masculino
ou os moralismos de quem come, mesmo sem fome
ou os machismos dos que tem pintos recém-descobertos.
que nela estejam presentes
a maquiagem gasta
os sorrisos dedicados
os olhos que te atravessam
e o ver-se sozinha, mesmo acompanhada.
é assim que o arrependimento se firma.
talvez, se atirarmos pedras
possamos ouvir o fundo dessa moça
mas é só um palpite.

12 de fevereiro de 2012

Testamento-lembrete

Favor deixar registrado:
Depois que as minhas cinzas forem misturadas à pólvora, certifiquem-se que os fogos de artifício sejam lançados numa noite boa, com vinho por perto. Não me importa a chuva, se houver. Gosto do barulho que ela faz. Qualquer coisa coloquem uma gravação de chuva encontrada no youtube por uns 10 minutos, assim a água impede que o vento me leve pra longe de vocês. O poente é o meu preferido, mas só acendam o pavio se houver indício de noite, pra que eu não suma no sol. Gosto de vermelho, de girassóis e de tutu de feijão. Ah, Blues, por favor. Uma gaita, que seja, ou um violão. Façam desenhos com 48 cores de lápis de cor. E dancem, em pares, sem pressa. Não me lancem no ano novo. Sejam capazes de perceber que algo se inicia do meu fim, mas não o confunda com um reveillon (as pessoas têm o hábito de achar que a vida recomeça por ondas puladas). Não quero ser Stop, apenas Pause. Depois retoma-se a vida de onde ela parou, de uma festa qualquer.

11 de fevereiro de 2012

Olás à toa

Deles, os mais detestáveis são os que não se despedem.
É como se o adeus desse validade à noite. Como se ele determinasse a validade.
A ausência do adeus não dá poesia no momento do adeus. Dá depois. No momento é só ausência, só falta de adeus. A noite não deixa de terminar pelo descumprimento da despedida. Ela deixa de terminar pelo que se imagina, depois, acerca da despedida. Não é do tipo de poesia da noite que é eterna pelo beijo impedido do amado, poesia branca de neve. É o tipo de poesia que você faz com os olhos perplexos olhando o teto enquanto está deitada, o tipo de poesia que te faz pensar nessa cama ocupada por um.
E bastava um tchau.

10 de fevereiro de 2012

Sobre barbies

Dou espaço aqui para um relato de infância.

Gostava de Barbies. Elas me faziam imaginar o que seria uma vida adulta. Mas nunca nomeei minhas Barbies e Kens com os nomes de minha mãe ou pai. A vida adulta deles é que parecia de fantasia diante das possibilidades que, em minha mão, a boneca se desdobrava pra abranger. Era eu nela, eram meus amores infantis nela, eram minhas aspirações de 2ª série nela, só que com um corpo mais desenvolvido - embora sem mamilos. E meu momento de me imaginar adulta era na chuva - talvez até hoje -, bastava que o som de alguns pingos me chegassem para eu correr rumo às pernas esguias e sem dedos da Barbie. A chuva me dava o isolamento acústico da intimidade. Lá eu poderia amar qualquer que fosse o menino que eu amasse na época - nessa época ama-se muito - e o meu jeito de fazer isso era arranjar uma vilã. Má, ela faria a mocinha cair de um penhasco-mesa, mas felizmente não causaria a sua morte, já que a astúcia de Barbie faz com que ela segure com apenas uma mão não-articulada a beirada do penhasco e lá fique por horas, à espera de um amor herói. Ele chegaria então, com seus cabelos de plástico nunca desfeitos pelo vento, e se curvaria a ela (tanto quanto se pode sem ter coluna), e estenderia seus braços em ângulo reto para tirá-la da aflição da morte. Então ele a abraçaria. Ou melhor, eu entortaria os braços dos dois até que aquilo se parecesse com um abraço e, fora um braço ou outro que se deslocava nesse carinho, confesso que o beijo sempre foi mais convincente. E confesso que é brega. Mas durante a minha infância o brega sempre esteve ao alcance.

Há, porém, algo que me intriga. Sempre me incomodavam os sorrisos. Eu cobrava momentos sérios dos bonecos, cobrava infelicidade. E de fato, seus olhos não sorriam, eles se enganavam. Tratei de buscar uma solução: tampava os sorrisos com meus polegares. Seus olhos se entristeciam e de repente eles viravam adultos. Meus amores já não cabiam neles - talvez a longínqua vontade de amar, que viria anos mais tarde -, mas seus olhos já me diziam mais do que muitos olhos da minha idade que eu nunca compreendi.

E a graça na qual me encontro agora é: hoje escondo infelicidade em sorrisos abertos, depois de já ter coberto sorrisos com os polegares. E quanto aos abraços... há mais facilidade para tê-los, mas tanta dificuldade em abdicar deles... Chego a crer que perder-se em um abraço pode doer mais do que perder um braço. Ainda mais quando ele é de plástico.

7 de fevereiro de 2012

Bom troco

O peso do ar daquela noite o fez querer sair. Em sua casa há muito que os pesos deixaram de ser prazerosos, que os corpos deixaram de repousar um sobre o outro depois das noites movimentadas. Pesados eram, mas de passado, de problemas que se acumulam, não mais de desejo de se fundirem em um. Quis sair para que alguma cerveja o pesasse verdadeiramente então. Pegou as chaves de olhos baixos e murmurou coisa do tipo "vou dar uma volta", embora creio que se lhe pedissem para repetir em voz alta, diria "não pretendo voltar". Partiu. Desceu a rua e entrou num bar de esquina. Gostava de lá. Lhe atraía a escuridão do lugar, a escuridão dos corações mal resolvidos de lá. "Rostos mal iluminados não evidenciam a idade dos riscos", pensava. "Aqui não sou velho, exceto por essa barriga feita pelo tempo e por essa camisa de listras antigas". Tentava redescobrir nos jovens de lá a juventude outrora vivida, tentava traduzir os gritos juvenis seguidos de batidas na mesa e de gargalhadas que outrora entendia plenamente. Mas havia perdido a proficiência. Observava, sem malícia - ou com a malícia dos casos perdidos -, a moça que lhe servia. Movimentava-se tanto, "mal sabe que tanto movimento a fará chegar mais rápido a lugar nenhum, à velhice dos inertes", pensava, enquanto desviava o olhar ao encontrar o dela. Pediu-lhe uma cerveja após a outra, e achou graça quando percebeu que sempre após o pedido, a menina balançava a cabeça afirmativamente, com um sorriso sem dentes e um olhar envergonhado, que fugia logo. Perguntou-se se ela, em alguma medida, o conhecia. Tinha cabelos volumosos de outra época, talvez a dele, mas não era aquilo que os aproximava. Nos breves momentos em que confirmava o pedido olhando-o nos olhos era como se tentasse lhe desvendar por um momento, e isso o incomodava. Se acostumara a ser indecifrável, de alguma forma isso lhe devolvia qualquer traço único da personalidade que ele havia perdido em alguma rua, nos anos de idas e vindas à casa. Haver alguém no mundo que o pudesse compreender seria um risco para aquele universo que ele criou pra si, cercado por muralhas de estabilidade financeira, felicidade domiciliar e ração para cachorros. Pediu a conta daquele olhar. "24 reais e 75 centavos", ela disse, enquanto o desvendava mais um pouco. "Pois me veja mais uma. E fique com o troco." Do tipo que nunca recebeu gorjetas, a menina deu um sorriso, e saiu com pressa, lembrando-se do "obrigada" no meio do caminho. Depois de entregar a cerveja, ela não tornou a olhar para ele. Não queria que pensasse que o olhava pelo dinheiro. Seu interesse era no peso que aquele senhor trazia ao seu bar, no olhar triste dos que disfarçam as dores no escuro. Sem mais a ver, ele murmura baixinho enquanto se prepara para ir: "que a gorjeta cale o seu olhar", embora eu pense que se lhe pedissem para repetir em voz alta, creio que diria "me desvende, me acompanhe".
E essa foi a segunda-feira que me deu 17 reais de troco.

5 de fevereiro de 2012

Estrelas na Roda da Misericórdia

Uma vez quis ser personagem de filme, daquelas que tem poesia no olhar. Quis ser poesia por um dia, e nesse dia adotei uma estrela. Dei entrada na papelada. No meu diário escrevi o documento oficial que me dava a guarda, e ele dizia:

"Sentada no banco menor do terraço, com o corpo virado levemente para a direita, olhe pro céu, um palmo acima do telhado da casa da esquina, uns centímetros à esquerda da lua. Ela estará lá, se a lua for minguante."

Mas eu tinha 11 anos e não seria uma boa mãe, então ela fugiu.

2 de fevereiro de 2012

O silêncio é eloquente; exceto quando é virtual.
O suspiro só se percebe quando em contato com a pele.

1 de fevereiro de 2012

A indireta incide na sua vista como um raio solar incide com um ângulo maior que zero na água de um copo. Se seus olhos fossem mar, ah! então o sol aqui não teria que se dividir em tantos raios, e eles não se perderiam em tantos olhos à procura dos seus. Mas o céu também tem lá sua refração. E quando o sol não sabe pra onde olhar, ele só reflete.

Eis a física, me fodendo novamente.