16 de maio de 2017

um pouco mais contemporânea que de costume

às vezes também me cansam os arcaísmos em que me meto
e em que meto os outros
queria ser menos antiga 
menos dada aos floreios e aos barroquismos daqueles que gostariam de ter sido
como aqueles poetas parisienses que morriam de tuberculose depois de muito conhaque
e tropeçavam em paralelepípedos 
enquanto evidentemente contribuíam muito para as artes modernas
ou só bebiam mesmo e daquelas sarjetas surgia um verso com gosto de cerveja velha

ser romântica me meteu em muitas encrencas
encrenca é sim uma péssima palavra
mas estou treinando isso em mim de parar de não gostar de algumas palavras
de ser mais direta
menos melindrosa
menos labiríntica
mais cheiro de cerveja velha e menos notas de aroma de qualquer coisa
encrencas servem a esse propósito

graças a deus ninguém é só uma coisa
eu tenho um quadro do batman, um buda de resina e um furby miniatura
eu coleciono memes e converso com plantas
- ou peço desculpas por nunca regá-las, é a vida -
eu dublo meus gatos em suas discussões avant-guarde
sobre a marcha lenta dos movimentos revolucionários dos humanos
eu danço entre aspas um belo hip hop na cozinha
e de vez em quando penso coisas mais complexas
como por exemplo que qualquer janela conta uma pequena história

assumo aqui algumas das minhas contradições:
sou atriz
mas gostaria de ganhar dinheiro
sou contraventora
mas odeio ser demitida
me desculpo e dou desculpas
mas confio no meu taco
tenho problemas 
mas sei apreciar uma lua cheia
sou romântica
mas faria um perfil no tinder
sou muito adulta
e muito pateticamente infantil
sofro e sofro e sofro
mas gosto de tomar chuva e me molhar por inteiro 
te amo e te odeio e coisa e tal

ser romântica é o que me deixa assim meio fora do mundo
e ao mesmo tempo o que me situa no chão
o que me faz sentir a terra entre os dedos
o oposto disso eu nem sei o que é 
acho que o antônimo de romântico é o realista
mas o que há de real naquilo que é o que é?
que pena ser o que é, ter o nome que se tem
"o que chamamos rosa, 
sob uma outra designação teria igual perfume"
prefiro acreditar que o mundo é mais, 
que as pessoas são mais
- não só do que os outros dizem que elas são -
que são mais do que elas mesmo acreditam que sejam
- afirmam que sejam -
prefiro acreditar que as palavras geram mundos outros
em que podemos habitar 
e onde habitamos até que o teto caia
prefiro acreditar que palavras não são moeda de troca

eu queria ser menos rococó
queria não ter os impulsos e arrependimentos de alguém de 15 anos 
queria não dar esses passos em falso que me destroem
ou que me fazem escorregar de maneira imbecil e pública
queria ser realista a ponto de entender as fronteiras do desejo 
mas é sendo romântica que eu entendo a vida
então tudo bem ser assim, eu acho

17 de abril de 2017

errata

assim como é necessário abrir todas as portas e deixar as correntes de ar trazerem toda poeira pra dentro, também é necessário cerrá-las com mil chaves como um ato de liberdade
e vice versa

explodir as pontes e fechar as pistas de pouso até essa minha ilha
parece razoável
para que eu veja o mar com mais clareza
e para que aportem os que de fato querem aportar

11 de abril de 2017

Mafalda me sopra algo

Entre 
"Mafalda se apaixonou pelo passado, casou com sua memória e mesmo com 79, morreu aos 14"
e
"Mafalda foi boa esposa, mãe e avó" 
há uma distância tão grande.

A morte já é um vento que deixa de ventar sem aviso. A quem sentia o vento faltam de repente seus cheiros, os pêlos arrepiados e às vezes as palavras, e a quem não o sentia, bom, a estes não falta nada.
(Eu nunca poderia ser redatora de epítáfios. Acabo de descobrir isso.)
Uma faixa numa coroa de flores comporta tão pouco de uma existência. Da pessoa, sua função, algum afeto, alguma saudade, e só. Seria preciso pregar um pergaminho inteiramente escrito em fonte 8 frente e verso numa coroa de clores para que algo de alguma existência fosse contemplado. Das coroas eu nem me arrisco a comentar, grotescos arranjos redondamente artificiais de todas as flores já mortas disponíveis na floricultura superfaturada em frente ao cemitério. 

Mafalda foi minha avó, mas antes de ser minha avó, Mafalda foi mulher.
E hoje lembrei de minha avó porque pensei em paixão. 
Hoje pensei que a vasta maioria dos textos que escrevi aqui era sobre as paixões que me faziam tremer (de dor, de prazer), e como isso pode ser cansativo pra quem não vê a vida por esse prisma.
Pensei que gostaria que meu epitáfio me reduzisse à "uma pessoa que se apaixonou" - e em seguida voltei a lembrar de minha avó e percebi minha pretensão. Minha avó sim,"uma pessoa que se apaixonou", e só.

Minha avó se apaixonou por um jovem estudante de medicina num ponto de ônibus quando tinha 14 anos e nunca o esqueceu. Foram algumas palavras trocadas. Se despediram e ela não o viu por quarenta anos. Casou-se, teve filhos, enviuvou, abriu vários bares e sobreviveu às suas falências. Aos 55 anos marcou uma consulta com o médico que encontrou no ponto de ônibus. Perguntou se ele lembrava dela, ele fez que não com a cabeça. Ela pagou a consulta e saiu. Seguiu. Um dia começou a matar formigas onde não havia formigas e chamar pessoas que já haviam morrido. Teve alzheimer, escleorose múltipla, vegetou. Antes de calar, às vezes chamava alto o nome do Dr. Carlos entre um espasmo e outro.


Paixão.
Se apaixonar para algumas pessoas pode ser tudo o que há.
Isso é delicioso e terrível. Uma paixão sem realização é como um vento que alguém não sente.
E como o maior medo da paixão é não ser lembrada (como minha avó naquele consultório) lanço aqui um punhado de hipóteses pessoais sobre ela, por pura pretensão de achar que é possível definí-la - e aqui estou escrevendo os epitáfios da paixão embora não seja minha intenção enterrá-la tão cedo. Sobre ela:

Pode se parecer com se manter na beirada de uma grande altura e ter a sensação de que o chão é seguro.

Pode ser como a própria queda. A sensação de que os órgãos flutuam dentro do corpo durante uma queda livre. (Ainda que meu parâmetro de queda seja o Hopi Hari e suas travas de segurança - essa queda outra não tem a ver com segurança)

Ou, mais concreto, talvez se apaixonar seja já estar no chão. Não há além. Talvez seja sentir que a imensa gravidade só não retém os pensamentos, mas é o que nos ajuda a mensurar o peso dos corpos sobre o nosso corpo. É tremer como a terra treme e depender da mesma terra se o caso for de cair. É se deixar cair, se deixar doer, se deixar sujar. É um encontro de dois corpos que anseiam pelo encontro - e não sabem o que fazer dele.


6 de abril de 2017

O tanto que acontece no entre.

27 de março de 2017

vergalhão de 1,56m

Algo de ver uma parede se erguendo em sua interioridade bruta me fala sobre a minha própia estrutura. Também eu sou feita de tijolos ocos que quando não cabem num lugar são fragmentados e às vezes despedaçam inteiros, também eu sou feita da pasta cinza de cimento pedra e água mal misturados, também eu me mantenho em pé por um vergalhão de ferro em processo de oxidação. Também eu causo a poeira grudenta de uma reforma necessária.
Mas isso tudo é poesia. Tudo isso é atribuir nobreza demais pra confusão desta mulher.

(E poeta mesmo é o pedreiro.)




17 de março de 2017

às minhas

As mulheres da minha família tem o toque liso de digitais gastas das lavagens à mão. É na falta das mesmas digitais que elas existem tão plenamente.
Sempre achei que as mãos trabalhadoras eram aquelas ásperas, duras, de juntas agudas; Eram as mesmas donas das mãos lisas que me diziam isso enquanto apalpavam as minhas mãos de menina. Não lembro de ter conhecido mãos mais macias que as de minha mãe e de minhas avós, e hoje leio - presencialmente ou em visitas à memória - suas existências complexas, penosas e de bravas lutas nas tantas linhas das palmas das mãos. Um tecido amarrotado de linhas, de rugas formadas pelos apertos de terços e ramos de arruda dos momentos de aflição, ou apenas dos sulcos dos caminhos feitos ou não feitos da vida que encontram abrigo ali.
Há algum tempo me sinto sem densidade, volátil. Vulnerável a qualquer vento mais forte que me dissipe pra qualquer atmosfera. Nesse tempo senti saudades dessas mulheres. Que a força delas estava na leveza de seus passos e mãos, e era ela que mantinha o mundo todo em ordem, as pessoas todas presas ao chão. Essas mulheres eram a terra, o subterrâneo de tudo, tudo aquilo que existe antes de qualquer movimento. Assim são as mulheres.
Me reuni no quintal da casa da família com minha irmã e minha mãe. Nunca antes estive tão vulnerável na presença delas. Qualquer olhar de sombrancelhas mais arqueadas era capaz de me derrubar num surto de lágrimas. Olhos baixos da vergonha de estar vazia da força das minhas ancestrais, da beleza do mundo, da capacidade de vencer qualquer tempestade como a terra que sucumbe, erode, estala e ainda assim germina e serve de chão. Minha irmã me encorajou a tirar cartas de um baralho de tarô. Leu o que elas diziam em voz baixa a pedido de minha mãe.
Leu ali o que me pareceu uma fenda na armadura que eu tinha construído pra mim.
Em seguida, minha mãe recolheu um ramo de arruda e trouxe um prato branco com água e uma colher com um pouco de óleo até a mesa. Me pediu olhos fechados. Rezou as palavras de minha avó paterna num murmúrio indecifrável enquanto fazia sinais da cruz ao meu redor. A cada sequência de orações parava por instantes, molhava um dedo com o óleo e esperava uma gota cair naturalmente no prato com água. Tornava a repetir. Arruda, óleo, água. Arruda, óleo, água.
Estavam ali as minhas origens, o meu chão.
Estava ali a minha densidade, a minha natureza.
Minha mãe se preocupou como mãe que é, e falou baixo sobre o porque havia repetido a benção tantas vezes. Enquanto ela falava baixo eu percebi que não era da benção o que eu precisava, mas desse silêncio outro, tempo outro, desse cheiro outro, desse toque liso que trazia minhas antepassadas para uma breve visita. Ela falava baixo porque temia que os vizinhos escutassem. Falava numa voz ainda mais grave pelo volume baixo e aquilo era como se alguma música antiga tocasse em mim.

Me senti junto às minhas. E isso já era o necessário para seguir.

um temporal

Ontem, e isso já faz um ano, me olhei no espelho e vi ali uma mulher. Não sei o quanto isso pode ser compreendido por quem me lê de fora ou pelo meu próprio eu de qualquer futuro, mas preciso registrar que esta citada distância entre eu e eu é imensa. De menina a mulher, um mar, um acidente geográfico, uma inversão dos pólos magnéticos. Não se deu assim num estalo, nada na natureza - e portanto, na mulher - acontece dessa forma, a não ser que se pisque tão demoradamente até perceber um novo outono como o mesmo (isso só ocorre nos casos extremos da paixão).
Não, não me sinto no mesmo lugar. No mesmo tempo. O espelho me mostra um rosto que aprende a ceder à gravidade das coisas, que aprende não sem medo a aceitar sua queda. Fora do meu reflexo, minha distância de menina a mulher foi percorrida por céu e terra.
Se tudo se passou aqui, neste apartamento, foram então as nuvens lá de fora que se formaram rapidamente num céu quente e vaporoso, e então descoloriram o grande azul e de brancas se tornaram cinzas e então quase negras, e nesse momento começaram suas corridas de mil ventos, um ou outro deles assobiando pavorosamente pela fresta da janela deste aqui. Toda uma iminência de algo, tudo um algo prestes a suceder. Chuva que salpica o amianto até ele também ser inteiro molhado como o céu e os pés e o meu espírito. Chuva sem direção, de todas as direções, granizo  eo barulho do choro empredado, ensurdecedor; céu e terra brancos e duros. (Daqui eu procurava também endurecer para não escoar ou evaporar)
E então o mundo foi se acalmando, compreendendo melhor o seu ciclo e permitindo que as pessoas recomeçassem os seus. Algum silêncio se instaurou, alguma paz. Há telhas caídas, árvores tombadas nas ruas, alguns acidentes de trânsito, roupas encharcadas nos varais - mas o nome disso é paz.
É aí que me reconheço agora. Mantendo a calma apesar das sirenes e alarmes disparados pelas pedras de gelo.

A duração do processo de tornar-me mulher é um temporal.

pequena carta sem remetente a um destinatário anônimo


o nosso é um caso típico da física e da química. um centímetro teu percorre quilômetros em mim, tem o impacto de uma pane elétrica e ao mesmo tempo que me dissolve me faz lembrar que há vida aqui.
pulsante, vibrátil, corrosiva.

27 de dezembro de 2016

mamihlapinatapai

Mamihlapinatapai (também escrita mamihlapinatapei) é uma palavra da Língua Yagan da Terra do Fogo, listada no Guiness Book como a palavra mais sucinta do mundo. Ela descreve "um olhar trocado entre duas pessoas no qual cada uma espera que a outra tome a iniciativa de algo que os dois desejam, mas nenhuma quer começar ou sugerir".

Será possível conjugá-la no presente?

26 de setembro de 2016

90°

Qual a unidade de um grau, Rafael?

Essa pergunta iniciou um debate entre nós dois que se estendeu por uma tarde inteira. Qual a unidade de um grau? Desses mesmo que se contam naquela régua redonda da escola, ou "transferidor" pelo que informava a lista escolar, e que nas aulas de geometria só servia para aumentar os gastos na kalunga, porque todo e qualquer ângulo era descoberto no lápis e na regra de três, nunca no olho.

Há seis meses meu namorado, com o qual moro há três anos, sofreu um acidente que lhe rendeu três ligamentos rompidos de um joelho, perícias no inss, uma fila de espera serpenteante e infinita do sus, uma equipe de residentes bastante impressionados com a gravidade da situação, todas as parcelas a pagar por um longboard na centauro, muitas bocas retraídas de amigos que dizem "força, cara" e um sentimento persistente de impotência e solidão. Hoje achei que era hora de falar um pouco sobre isso.

Caso alguém não conheça, na saúde pública, há grandes salas de espera bastante cheias e um método de chamada de senhas bastante controverso, que sempre gera resmungos ou berros que atravessam a sala e tiram do transe da senha quase todos aqueles que já tinham se acostumado às 5 horas de espera enquanto assistiam uma Ana Maria Braga muda que ensina a fazer um pão na chapa ou uma simpatia dos seus antepassados com uma molheira de cristal. Particularmente, a decoração me magoa, remete aos anos 80, mistura madeira e laminado, laranja, cinza e verde e hoje mesmo percebi que o chão tem um quê psicodélico. Em alguns momentos dá mesmo uma vontade imensa de gritar "quero café". Tudo isso numa paisagem surrealista composta por dezenas de casos ortopédicos de simples a gravíssimos. Dá tempo para formular todo tipo de pensamento. Um deles é de que o normal é ser infeliz, por isso é tão difícil distinguir a felicidade. Um ou outro paciente brilha entre as olheiras e os suspiros prolongados de todos e fazem lembrar de anjos ou de espíritos muito antigos. Foi assim que eu e Rafael aprendemos a reconhecer motivos para o riso nessas manhãs, e de vez em quando a gente ri mesmo.

Há também os dois recepcionistas cansados, a moça da prancheta de pesquisa que tem uma alma boa, as duas moças que se revezam no canto colorido das crianças que pintam, os seguranças que se empenham na distribuição de etiquetas, o homem que grita nomes sem sobrenome e percebe seu erro, além dos médicos sempre muito bonitos e altos, com certeza competentes, mas que diante da pergunta "o que você faria se fosse alguém querido a você?" vacilam e dizem que contratariam um convênio, provavelmente.

Em uma consulta, Rafael estava em 26º na fila de espera pela cirurgia. Na consulta seguinte, sua posição aumentara para 52º. Não souberam nos informar os critérios, afinal, a Tânia não está. A Simone talvez saiba. Não sabe. Já perguntou pro médico? Sim. Aparentemente muito pode acontecer nos três meses entre uma consulta e outra. Uma cirurgia feita a cada 3 semanas era a nossa perspectiva, podem fazer as contas. Outra perspectiva era ou ainda seja pagar 50 mil reais. Mas me acompanhem aqui: Três anos de pausa para um homem de 28 anos. "Pausa" porque não é uma situação permanente nem temporária, é ambas. Três anos de afastamento não do trabalho, mas da possibidade de fazer planos. Mas não é sobre isso que quero falar.

Fui eu quem dei o skate para ele, um dia antes. Eu dou presentes quando quero melhorar algo ou quando tenho algum dinheiro sobrando. Você que conheceu essa história já me disse "Não se culpa, Marô! Poderia acontecer de qualquer jeito." (ou fez alguma piada por pensar que a culpa é fato vencido ou ficcional - a graça é talvez a única forma de existência para essas pessoas, tudo bem) Agradeço de verdade. Acontece que a culpa geralmente não obedece a razão, amigos. Ela vai habitando aos poucos cada almoço que você demorou pra preparar, cada ligação que você não fez para determinado bom advogado por medo dos honorários, cada resposta ríspida que sai sem querer, cada pensamento que vagueia fora do que há aqui, cada NET cortada por falta de saldo, cada caminhada sozinha até o mercado, cada silêncio de alguém que não quer te pedir nada porque acha que você já está fazendo demais. Mas não é sobre mim que eu quero falar.

Disseram que a cirurgia só poderia ser feita se o Rafael conseguisse dobrar o joelho a 90°. Disseram que talvez fosse possível convencer o médico a antecipar a cirurgia se o Rafael conseguisse dobrar o joelho a 90°. Ele só conseguia dobrar 20° com muita dor. A fisioterapeuta me disse pra puxar a orelha do Rafael para que ele insistisse nos exercícios. Vieram dezoito cartelas de dipirona e mais um remédio mais forte para a dor. E a cada exercício eu tentava adivinhar o ângulo no olho (sem regra de três).

Como professora e artista do corpo, tem me emocionado a sensação de "mover as pessoas". Hoje senti o mesmo observando as mãos cuidadosas das fisioterapeutas nessa missão tão concreta de retornar movimento a alguém, indicando a subida de pequenas rampas, a descida de um degrau, a dobra de um dedo, a primeira caminhada com uma prótese infantil. Não é fácil. E pela milésima vez imaginei o que é estar privado de movimento.

(Perdi a conta de quantas vezes me referi ao rafa como "imobilizado". Penso que o imobilize um pouco mais sempre que digo isso)

Na tarde em que conversamos sobre graus, o Rafael disse "É engraçado perceber que a meta é essa. Não fazer a cirurgia, mas dobrar o joelho. Dobrar o joelho sem saber pra quê é a minha esperança. Ok."

Na tarde em que conversamos sobre graus, um amigo fez uma piada sobre a perna do Rafa chegar a 90°Celsius. 90° de quê? Descobrimos no wikipedia que a unidade dos graus dos ângulos tem a ver com minutos e segundos. Tem a ver com tempo. A unidade do grau é o tempo, Rafael.

Hoje, quando o Rafael chegou aos 90°, eu senti de novo o vento de quem anda pela primeira vez de bicicleta sem a ajuda de ninguém. É importante compartilhar isso.
Hoje eu chorei como uma criança vendo um pedal de bicicleta dar uma volta completa.

5 de agosto de 2016

Ficção

não me atravessou a mim
só me atravessou os olhos, os ouvidos, a boca, o pesçoco, a nuca, os ombros e o cheiro
só me atravessou os seios, a rampa das costas, o fim das costelas, a cintura e os quadris
só me atravessou as coxas, o sensível da pele, as dobras da virilha, do tempo e algo mais
só me atravessou o pensamento que vara as fronhas, a mão que vara as roupas, a saliva que vara as bocas e a paz

ensaio de canção para mafalda

#3
é um cupido disléxico
embora de amplo léxico de:
semanas em silêncio
vírgulas, risos tontos,
bons dias em suspenso
espaços e três pontos

#1
é um cupido disléxico
reabilitou seu arco e flecha antiquado
enferrujado
mas errou o lado
pensou "sendo amor, atiro com a pena pra frente pra afagar"
a pena cocegou até furar
e foi entrando na contra-mão
até que o metal oxidado de duas pontas
ao invés de uma
esfriou o peito em dois pontos
ao invés de um
e só entrou um pouquinho,
como tachinha esquecida no chão
ou corte ardido de papel
só que no coração
e alí travou sem saída
tal foi sua interpretação tão bonita
de um jogo mortal de jigsaw

#2
o mesmo cupido disléxico
não admitiu a falha
e mesmo sem muito combustível
acendeu sua flecha em chamas
e quase botou fogo em tudo
mas mirou melhor
só não contou que na ausência de coração
desenvolve-se a manteiga
então sua flecha ardente entrou sem mérito
e a manteiga logo derreteu
e quase por vontade própria
pra dar alguma umidade
pra carne seca de um baião de dois

#4
ó, cupido disléxico
sua flecha-tiro
espatifou os ossos por dentro
mas não atingiu nenhum orgão vital
não tem mal


Luiza

Luiza se sentia assistida como uma atriz no momento em que se suspende num guincho por não se lembrar da próxima ação da cena. Não, não. Este é um momento precioso, véspera de qualquer coisa viva prestes a acontecer no palco. Essa metáfora é impossível porque não é em vida que Luiza pensa.

Luiza se sentia assistida como uma atriz - repito a metáfora por senti-la familiar - que já errou muitos textos numa mesma apresentação. Que gaguejou, que pulou uma palavra importante, que se enroscou em sílabas consonantais, travou - olhou para alguém do público com expressão entendiada - quis disfarçar e foi engolida pelo piso. Luiza tende a exagerar nas metáforas, mas de qualquer forma ela se sentia assistida.

Alguém mais atento poderia dizer que Luiza está sendo assistida apenas por ela mesma e por mais ninguém enquanto escreve num blog ou enquanto permanece em pé frente aquele que arranha seus pensamentos. Esse mesmo alguém mais atento poderia dizer que Luiza se engana tanto a respeito do que pensa de si e das pessoas... e usaria reticências para demonstrar sua decepção. Ao final das reticências, pula uma linha, parágrafo, esse alguém diria que é Luiza quem assiste a todos - e a vida dos outros dói.

Mas voltemos à ficção de Luiza. Assim assistida, qual seria a estética de seu filme? Preto e branco, pós dramático, noir?  Lírico, épico, dramático? Um documentário sobre seu hábito de molhar pão com manteiga no nescau? Qual cena a traduziria em sua complexidade tão preguiçosa? Um rinoceronte num barco remado por ela? Um homem que tenta atravessar uma piscina com uma vela acesa? Uma mulher que olha dentro da boca de um homem para descobrir o que mora ali de verdade? Ou quem sabe um blockbuster qualquer em cores pastéis, corpos de herbalife e bonitos e sempre recíprocos sentimentos?

Luiza em seu íntimo deve achar que sua estética é a das câmeras de segurança. A granulação tem sua poesia, além de sair mais barato, ela deve pensar. Das características que a convencem que a câmera de segurança imortaliza sua vida:
I - Baixo orçamento
II - Baixa definição
III - A paisagem nunca se altera
IV - Há suspense do iminente crime
V - Alguns rostos são confiáveis e suspeitos ao mesmo tempo

Luiza se dispõe a emprestar a fita aos interessados.

27 de julho de 2016

dorme

eu queria ter estado mais perto
enquanto te beijo em cada parte do rosto
é inevitável querer estar mais perto mesmo assim
enquanto te abrigo no meu colo, enquanto te molho a nuca para te impedir de cair no sono
eu ainda não entendo tão bem a ânsia de não viver
queria ter estado mais perto pra ver se entendia assim, por toque
ainda não entendi
porque amar é só o que se sabe
e quando se ama se quer vivo
mesmo tracejando assim, com qualquer bic, uma nova linha da vida na sua mão direita

te desejo o oposto do teu desejo
e imagino não deve ser agradável ser privado assim do sono
e embora ainda não saiba do que te preservo enquanto leio bulas no google
peço paciência, amigo
cheguei a tempo, estou perto 
de corpo e memória

é só o necessário

4 de julho de 2016

uma vaga cativa

Há aqui um senhor que sempre guarda sua vaga em frente ao prédio.
Apesar de não ter carro, em mim se criava uma aversão a esse hábito: o senhor se levantava cedo, fazia o que se havia de fazer com um carro em São Paulo e voltava a tempo de nenhum outro ocupar sua vaga. Ao meu olhar justo e puro, um egoísta! Esse incômodo tão nobre  acabou por fazer parte da minha rotina, e de vez em quando me percebia tendo prazer ao criar pequenos jogos para mim mesma - daquele tipo de jogo em que você deve chegar ao microondas antes que ele anuncie o terceiro sinal, sim - sobre a presença ou ausência daquele Uno cinza enferrujado em sua vaga cativa, enquanto maldizia (um pouquinho só) o senhor e sua rotina.

Semana passada estive no ponto de ônibus com ele, às 6 da manhã de um sábado.
Perguntei o que faria, ele disse que nada. Só gostava de andar pela manhã. 
Eu disse que era corajoso acordar tão cedo por vontade própria. E lembro de ter pensado naquele momento, durante um bocejo para ser mais precisa, que se eu não tivesse tantas obrigações talvez eu acordasse cedo também, que era a obrigação de acordar cedo a coisa ruim, os velhos que tem sorte.
Ele completou dizendo que passou a acordar cedo depois de enfartar pela primeira vez, e que até andaria até a Paulista, mas seu coração não aguentaria terrenos íngremes, disse o médico. 
Pegamos o mesmo ônibus até a Paulista. Minha desculpa para não andar era minha grande sacola e o medo de atrasar.
Nos despedimos sem muito em comum e seguimos para nossas rotinas.

Sábado passado o encontrei no elevador.
Desceu comigo mas se despediu no portão, em frente ao Uno cinza.
Andei alguns metros, olhei para trás.
Ele parecia esperar que nossa distância aumentasse para depois seguir o mesmo caminho. Presumi seu desconforto. Velhos costumam se sentir fardos para jovens, ou ver nos jovens um fardo, ainda não descobri.
Perguntei se iria para o ponto. Se queria companhia. Ele aceitou.
Andamos juntos. Ele disse que não andaria tão rápido quanto uma jovem, então eu desacelerei (até perceber que ele tentava andar mais rápido para acompanhar o que presumia ser a minha velocidade real).
Dei graças a deus pelo semestre estar acabando.
Ele concordou, disse que assim se afastava mais rápido do evento e se aproximava mais rápido do que quer que houvesse no futuro. Tive que perguntar.

Sua filha morrera em maio. E em maio eu ainda o maldizia pelo seu Uno.
Um aneurisma dentro de um ônibus bastou.
Ele só pensava nela naquela manhã. Tudo lembrava ela.

Sua voz se agravou, estávamos numa subida.
Eu ando bem até, mas esses terrenos íngremes...
A safena não aguenta
O médico disse...
Mas às vezes eu penso, de que adianta tudo isso? 
Pra que se cuidar tanto? 

Um grande vazio operava entre nós, enquanto o sol ainda surgia.
Minhas palavras ainda não dão conta dessa distância. Digo 'força' sem saber qual a força necessária para aquele senhor. Sou jovem e de fato ando depressa demais.  
Tínhamos ali menos em comum do que na primeira conversa, mas havia qualquer coisa de voz e ouvidos agora. Ele disse que pegaria o próximo ônibus, e me despedi com um toque em seu ombro e um olhar que não dizia nada, provavelmente.

Hoje passei pelo Uno e me vi do avesso por um momento.