1 de abril de 2012

uma última palavra sobre.

de tempos em tempos, te confiro. de luneta em mão, tento enxergar qualquer banco de areia da tua ilha movediça. e da linha arredondada do horizonte vejo escrito: acabou. estou feliz aqui. você está feliz ali. se bem que dizer... bem sabemos que a alegria ou o pesar de qualquer um de nós só se constata na presença. e estamos distantes. melhor assim. meus portos seguros agora são muitos, ou nenhum. o seu, bem posso imaginá-lo, no seu típico mar revolto de incertezas, piscando fraco em meio às tempestades das tuas escolhas. eu estou no interior, na água doce e hostil, mal te vejo. bem queria. só o que se mostram são encontros distantes e fortuitos entre faróis e embarcações inseguras. que não sejam apenas luzes. que te amem. antes eramos duas embarcações, talvez. duas naus naufragando de mãos dadas, encontrando uma na outra um porto. éramos separados por oceanos, por horizontes molhados. na garrafa, um cheiro de rum impregna o pergaminho que diz: "vou indo, vai indo, nos perdemos aqui, nesse desencontro." e no mar mergulho, esperando-t.... esperando-um-te. te cuida, pois já tirei essa tarefa da lista dos meus pensamentos. terei que dar uns pontos nesse coração.

15 de março de 2012

contando roxos

roxos doem conforme a altitude
bater a canela quando se está nas nuvens não dói
a não ser que se escolha olhar o roxo
porque o roxo é a dor que não quer ser esquecida
é dor que dói por se fazer olhar, é nos olhos que ela dói
o roxo é o que te mantém terrena, o que te faz voltar pro chão
por isso que eu ando criando o hábito de me ancorar
porque cair da neblina das coisas que não doem causa hematomas
e a realidade assume-se... roxa.

1 de março de 2012

Meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou pensando
um pouquinho em cada coisa
me entristeço um pouquinho
mas calma
eu me alegrarei
garanto
meu mal é pouquinho

de pouquinho em pouquinho vou me afastando
e outros também se afastando, me afastando
bem pouquinho
um de cada vez
um pouquinho de cada vez
a minha voz vai ficando embargada
nada de mais, só de pouquinho

de pouquinho em pouquinho eu vou esquecendo de como dizer adeus
vou perdendo as faces
e as vozes
de pouquinho em pouquinho as distâncias aumentam
(vide a áfrica e a américa
dois centímetros de atlântico a mais todo ano
no meu mapa são quilômetros)
sem que eu perceba o pouquinho vira muito
porque de pouquinho em pouquinho a gente deixa de estar
de amar
de esperar
deixa de querer lembrar
deixa na gaveta só o pouquinho do que passou
e é pouquinho o cheiro que sai dela quando é aberta
porque mal-conservada, sem naftalina, a cabeça da gente fica um pouquinho esquecida
e de pouquinho em pouquinho a gente se acostuma

é com pouquinho que eu me contento de início
peço pra ficar mais um pouquinho
abraçar mais um pouquinho
aí o pouquinho deixa de querer contentar
vira pouquinho apenas
e de pouquinho em pouquinho vou querendo ir embora e deixar a louça pra outra

pouquinho, pouquinho
chego a te amar
tamanha a sonoridade bacana do teu nome
mas não vou me iludir
bem sei que é pouquinho o que tem a me oferecer
teríamos um caso de amor regular, sem arrebatamentos
as estrelas do nosso céu pouquinho apaixonado seriam pouquinhas
e só um pouquinho brilhantes
nem filhos poderíamos ter
que diminutivos de pouquinhos se perderiam facilmente por aí
teriam auto-estima baixa, teríamos que pagar um psicólogo
e com pouquinho dinheiro não dá

de pouquinho em pouquinho vou achando engraçado falar pouquinho tantas vezes
lembra porquinho
mas não quero fazer graça
que o pouquinho é o meu estado de incompletude
o pouquinho é o que falta e o que sobra
me pego saturada e insaturada ao mesmo tempo
vivo de pouquinhos
ando um pouquinho abatida por isso
nada demais, só de pouquinho, não se preocupe
mas não ache que é pouco
é pouquinho
que o pouquinho tentando se convencer de que não é nada
se coloca no diminutivo, e assim acaba maior que pouco
se torna quase muito

15 de fevereiro de 2012

da ascensão à queda do colo

de que me adiantam os olhares censores?
lhes digo claramente: sou isso. e não sou.
quero crer que a maioria é assim também, pra não me sentir tão minoria.
a culpa de buscar colo é dos colos, não de quem os busca.
dos colos que foram, dos colos que não permaneceram, dos que aí se mostram desocupados quando não estão.
no fundo é só isso, não se enganem. é busca por colo.

e nessa busca vou sendo eu e vou deixando de ser eu quase simultaneamente
sou eu no momento, e deixo de ser quando ele acaba
então viro sombra pensativa, que cogita sobre seus erros, acertos e exageros
viro arrependimento, aí volto a ser eu
acho que me definirei assim:
te tenho, logo existo;
te perco, logo inexisto;
me arrependo de você e volto a existir.

o erro é voltar a querer o momento
voltar a querer colo, voltar a querer existir.
não é te querer, é querer alguém que me queira
por um momento que seja.
o erro não é perder meus lábios bêbados em seus lábios secos
o erro é acreditá-los molhados
e um dia encontrá-los se abrindo e fechando em palavras ditas a outros,
incitando os olhos censores a se anunciarem
como se meus próprios olhos já não se censurassem a ponto de desejar o chão como morada
é de quedas que são feitos os colos
a queda num colo te faz incólume
ao passo que a queda de um... te faz outra
outra muito menos predisposta a cair

mas atente:
na trajetória do arrependimento
que não estejam presentes as conversas de banheiro masculino
ou os moralismos de quem come, mesmo sem fome
ou os machismos dos que tem pintos recém-descobertos.
que nela estejam presentes
a maquiagem gasta
os sorrisos dedicados
os olhos que te atravessam
e o ver-se sozinha, mesmo acompanhada.
é assim que o arrependimento se firma.
talvez, se atirarmos pedras
possamos ouvir o fundo dessa moça
mas é só um palpite.

12 de fevereiro de 2012

Testamento-lembrete

Favor deixar registrado:
Depois que as minhas cinzas forem misturadas à pólvora, certifiquem-se que os fogos de artifício sejam lançados numa noite boa, com vinho por perto. Não me importa a chuva, se houver. Gosto do barulho que ela faz. Qualquer coisa coloquem uma gravação de chuva encontrada no youtube por uns 10 minutos, assim a água impede que o vento me leve pra longe de vocês. O poente é o meu preferido, mas só acendam o pavio se houver indício de noite, pra que eu não suma no sol. Gosto de vermelho, de girassóis e de tutu de feijão. Ah, Blues, por favor. Uma gaita, que seja, ou um violão. Façam desenhos com 48 cores de lápis de cor. E dancem, em pares, sem pressa. Não me lancem no ano novo. Sejam capazes de perceber que algo se inicia do meu fim, mas não o confunda com um reveillon (as pessoas têm o hábito de achar que a vida recomeça por ondas puladas). Não quero ser Stop, apenas Pause. Depois retoma-se a vida de onde ela parou, de uma festa qualquer.

11 de fevereiro de 2012

Olás à toa

Deles, os mais detestáveis são os que não se despedem.
É como se o adeus desse validade à noite. Como se ele determinasse a validade.
A ausência do adeus não dá poesia no momento do adeus. Dá depois. No momento é só ausência, só falta de adeus. A noite não deixa de terminar pelo descumprimento da despedida. Ela deixa de terminar pelo que se imagina, depois, acerca da despedida. Não é do tipo de poesia da noite que é eterna pelo beijo impedido do amado, poesia branca de neve. É o tipo de poesia que você faz com os olhos perplexos olhando o teto enquanto está deitada, o tipo de poesia que te faz pensar nessa cama ocupada por um.
E bastava um tchau.

10 de fevereiro de 2012

Sobre barbies

Dou espaço aqui para um relato de infância.

Gostava de Barbies. Elas me faziam imaginar o que seria uma vida adulta. Mas nunca nomeei minhas Barbies e Kens com os nomes de minha mãe ou pai. A vida adulta deles é que parecia de fantasia diante das possibilidades que, em minha mão, a boneca se desdobrava pra abranger. Era eu nela, eram meus amores infantis nela, eram minhas aspirações de 2ª série nela, só que com um corpo mais desenvolvido - embora sem mamilos. E meu momento de me imaginar adulta era na chuva - talvez até hoje -, bastava que o som de alguns pingos me chegassem para eu correr rumo às pernas esguias e sem dedos da Barbie. A chuva me dava o isolamento acústico da intimidade. Lá eu poderia amar qualquer que fosse o menino que eu amasse na época - nessa época ama-se muito - e o meu jeito de fazer isso era arranjar uma vilã. Má, ela faria a mocinha cair de um penhasco-mesa, mas felizmente não causaria a sua morte, já que a astúcia de Barbie faz com que ela segure com apenas uma mão não-articulada a beirada do penhasco e lá fique por horas, à espera de um amor herói. Ele chegaria então, com seus cabelos de plástico nunca desfeitos pelo vento, e se curvaria a ela (tanto quanto se pode sem ter coluna), e estenderia seus braços em ângulo reto para tirá-la da aflição da morte. Então ele a abraçaria. Ou melhor, eu entortaria os braços dos dois até que aquilo se parecesse com um abraço e, fora um braço ou outro que se deslocava nesse carinho, confesso que o beijo sempre foi mais convincente. E confesso que é brega. Mas durante a minha infância o brega sempre esteve ao alcance.

Há, porém, algo que me intriga. Sempre me incomodavam os sorrisos. Eu cobrava momentos sérios dos bonecos, cobrava infelicidade. E de fato, seus olhos não sorriam, eles se enganavam. Tratei de buscar uma solução: tampava os sorrisos com meus polegares. Seus olhos se entristeciam e de repente eles viravam adultos. Meus amores já não cabiam neles - talvez a longínqua vontade de amar, que viria anos mais tarde -, mas seus olhos já me diziam mais do que muitos olhos da minha idade que eu nunca compreendi.

E a graça na qual me encontro agora é: hoje escondo infelicidade em sorrisos abertos, depois de já ter coberto sorrisos com os polegares. E quanto aos abraços... há mais facilidade para tê-los, mas tanta dificuldade em abdicar deles... Chego a crer que perder-se em um abraço pode doer mais do que perder um braço. Ainda mais quando ele é de plástico.

7 de fevereiro de 2012

Bom troco

O peso do ar daquela noite o fez querer sair. Em sua casa há muito que os pesos deixaram de ser prazerosos, que os corpos deixaram de repousar um sobre o outro depois das noites movimentadas. Pesados eram, mas de passado, de problemas que se acumulam, não mais de desejo de se fundirem em um. Quis sair para que alguma cerveja o pesasse verdadeiramente então. Pegou as chaves de olhos baixos e murmurou coisa do tipo "vou dar uma volta", embora creio que se lhe pedissem para repetir em voz alta, diria "não pretendo voltar". Partiu. Desceu a rua e entrou num bar de esquina. Gostava de lá. Lhe atraía a escuridão do lugar, a escuridão dos corações mal resolvidos de lá. "Rostos mal iluminados não evidenciam a idade dos riscos", pensava. "Aqui não sou velho, exceto por essa barriga feita pelo tempo e por essa camisa de listras antigas". Tentava redescobrir nos jovens de lá a juventude outrora vivida, tentava traduzir os gritos juvenis seguidos de batidas na mesa e de gargalhadas que outrora entendia plenamente. Mas havia perdido a proficiência. Observava, sem malícia - ou com a malícia dos casos perdidos -, a moça que lhe servia. Movimentava-se tanto, "mal sabe que tanto movimento a fará chegar mais rápido a lugar nenhum, à velhice dos inertes", pensava, enquanto desviava o olhar ao encontrar o dela. Pediu-lhe uma cerveja após a outra, e achou graça quando percebeu que sempre após o pedido, a menina balançava a cabeça afirmativamente, com um sorriso sem dentes e um olhar envergonhado, que fugia logo. Perguntou-se se ela, em alguma medida, o conhecia. Tinha cabelos volumosos de outra época, talvez a dele, mas não era aquilo que os aproximava. Nos breves momentos em que confirmava o pedido olhando-o nos olhos era como se tentasse lhe desvendar por um momento, e isso o incomodava. Se acostumara a ser indecifrável, de alguma forma isso lhe devolvia qualquer traço único da personalidade que ele havia perdido em alguma rua, nos anos de idas e vindas à casa. Haver alguém no mundo que o pudesse compreender seria um risco para aquele universo que ele criou pra si, cercado por muralhas de estabilidade financeira, felicidade domiciliar e ração para cachorros. Pediu a conta daquele olhar. "24 reais e 75 centavos", ela disse, enquanto o desvendava mais um pouco. "Pois me veja mais uma. E fique com o troco." Do tipo que nunca recebeu gorjetas, a menina deu um sorriso, e saiu com pressa, lembrando-se do "obrigada" no meio do caminho. Depois de entregar a cerveja, ela não tornou a olhar para ele. Não queria que pensasse que o olhava pelo dinheiro. Seu interesse era no peso que aquele senhor trazia ao seu bar, no olhar triste dos que disfarçam as dores no escuro. Sem mais a ver, ele murmura baixinho enquanto se prepara para ir: "que a gorjeta cale o seu olhar", embora eu pense que se lhe pedissem para repetir em voz alta, creio que diria "me desvende, me acompanhe".
E essa foi a segunda-feira que me deu 17 reais de troco.

5 de fevereiro de 2012

Estrelas na Roda da Misericórdia

Uma vez quis ser personagem de filme, daquelas que tem poesia no olhar. Quis ser poesia por um dia, e nesse dia adotei uma estrela. Dei entrada na papelada. No meu diário escrevi o documento oficial que me dava a guarda, e ele dizia:

"Sentada no banco menor do terraço, com o corpo virado levemente para a direita, olhe pro céu, um palmo acima do telhado da casa da esquina, uns centímetros à esquerda da lua. Ela estará lá, se a lua for minguante."

Mas eu tinha 11 anos e não seria uma boa mãe, então ela fugiu.

2 de fevereiro de 2012

O silêncio é eloquente; exceto quando é virtual.
O suspiro só se percebe quando em contato com a pele.

1 de fevereiro de 2012

A indireta incide na sua vista como um raio solar incide com um ângulo maior que zero na água de um copo. Se seus olhos fossem mar, ah! então o sol aqui não teria que se dividir em tantos raios, e eles não se perderiam em tantos olhos à procura dos seus. Mas o céu também tem lá sua refração. E quando o sol não sabe pra onde olhar, ele só reflete.

Eis a física, me fodendo novamente.
Eu não quero você
Eu quero você com uma pitada de além
Além-você, além-mim
Que essa coisa de eternidade nunca me enganou
Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.

Não... não é isso.
Um diário só existe nos dias ruins, só eles que têm vontade de ser escritos. Dias sem decepções só dão vontade de abrir a geladeira. Dias banais não dão literatura e não querem ser lidos, tampouco. Preferem ser esquecidos no limbo da suposta felicidade que vai me fazer um dia olhar pra trás e dizer "eu era feliz e não sabia". Não sabia porque não tive vontade de falar sobre eles, e não ter vontade de falar pode ser fruto do arrebatamento mas também fruto da mediocridade da suposta felicidade. Mas sempre terei certeza dos meus dias tristes. Direi "eu era triste e sabia" e "devo ter sido feliz, mas não sabia porque estava ocupado sendo feliz", e se um dia minha sanidade cessar, vou me esquecer de lembrar que devo ter sido feliz, e começarei a escrever pela trigésima vez um diário pra não esquecer mais, nunca mais, dos meus últimos dias felizes. Então, enquanto estiver escrevendo, pensarei que são os meus últimos dias, e eles se tornarão tristes. Porque as palavras não traduzem felicidade. Porque a dor sonha que um dia vai se encerrar em si mesma (mas não consegue, coitada). Porque enquanto a alegria te faz dormir pesado, a dor te tira o sono. E sem sono você pensa na dor. Sem sono você quer falar sobre ela, quer que o mundo a conheça. Deitados na cama sem ninguém pra entendê-los melhor do que vocês mesmo, vem a verdade: Você a ama (é rima pobre, amor e dor, bem sei). Você a ama mais até do que a felicidade dos dias esquecidos, ama porque ela te faz lembrar do que nunca lembramos nos dias bons. De nós mesmos. O diário é bom quando se torna semanário, quinzenário. É bom quando pula dias que foram felizes por qualquer razão e coloca em suas linhas a transcrição de uma conversa de cama, sob lençóis. Transcrição íntima de uma conversa consigo mesmo. Um Si-ário.

Se bem que no fundo eu escrevi tudo isso só pra justificar um blog tão depressivo.